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segunda-feira, 12 janeiro, 2026

A queda do “homem forte”

Confira o conteúdo assinado pelo advogado Arnon Alves

Toda sociedade tem a sua trilha sonora. Há períodos em que ela soa como marcha — dura, repetitiva, marcada pelo passo firme de quem não admite desvios. Em outros momentos, a música muda de tom: entra um silêncio incômodo, depois um acorde inesperado, e nada volta a ser como antes.

A queda de um líder personalista — aquele que concentrou poder, voz e destino em si mesmo — costuma ser esse acorde fora do tom. Não é só um fato jurídico. É uma pausa brusca na canção da força. É quando o “homem forte” sai do centro do palco e o microfone cai no chão, fazendo um ruído que ecoa muito além do tribunal.

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Esses líderes governam como solistas. Não gostam de coro, dispensam harmonia e rejeitam o contraponto. A política, sob eles, vira refrão simples, repetido à exaustão: nós contra eles, ordem contra caos, lealdade contra traição. Funciona — por um tempo. O público canta junto, bate palma e se divide em torcidas. A melodia pega fácil porque apela mais ao sentimento do que à razão.

Entretanto, toda música tem desgaste. O refrão cansa. A repetição excessiva perde força. E, quando chega o momento da queda, o que se vê não é apenas um homem caído, mas o colapso simbólico de uma narrativa. O mito da invencibilidade desafina.

Para sociedades polarizadas, esse momento é especialmente delicado. Há quem escute a queda como justiça finalmente afinada com a lei. Outros a ouvem como perseguição, como se o maestro tivesse sido derrubado pelo próprio público. O mesmo som provoca aplausos e vaias — às vezes ao mesmo tempo.

É aí que o símbolo se impõe. A queda do “homem forte” não resolve, por si só, os problemas que ele ajudou a criar. Não conserta a economia, não recompõe instituições e não cura feridas sociais. Mas muda o ritmo. Mostra que o poder não é eterno, que o cargo não é escudo e que o volume pode baixar.

Como em uma música conhecida, quando o arranjo muda, somos obrigados a escutar com mais atenção. A queda rompe a ilusão de que um único personagem sustenta toda a obra. Obriga a sociedade a encarar algo desconfortável: sem o líder no centro, quem assume o compasso? Quem escreve a próxima estrofe?

Talvez o maior impacto simbólico esteja justamente aí. A queda do “homem forte” expõe o vazio que o personalismo deixa. Revela o quanto se apostou mais na figura do cantor do que na qualidade da canção. E lembra que democracias não sobrevivem de solos eternos, mas de conjuntos afinados, onde ninguém é maior que a música.

No fim, não se trata de comemorar algemas nem de romantizar quedas. Trata-se de entender o sinal. Quando o líder cai, a sociedade é convidada a decidir se quer repetir o velho refrão — agora em tom mais alto e agressivo — ou se está pronta para compor algo novo, menos barulhento, mais complexo, talvez até mais difícil de cantar, mas infinitamente mais duradouro.

“A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda – Provérbios 16:18

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