Caro Leitor.
Janeiro esta findando, e tradicionalmente Fevereiro vem trazendo um ar de festa popular, o que precisamos saber?
O Carnaval surgiu na Europa, ainda na Idade Média, como uma festa popular ligada ao calendário cristão, realizada nos dias que antecediam a Quaresma. Era um período de inversão simbólica da ordem social, quando excessos eram permitidos, hierarquias se afrouxavam e o riso ocupava o lugar da rigidez moral. Com a colonização, essa tradição chegou ao Brasil trazida pelos portugueses, especialmente por meio do entrudo, uma brincadeira de rua marcada por jogos, água, farinha e irreverência. Ao longo do tempo, o Carnaval brasileiro se transformou profundamente ao incorporar influências indígenas e, sobretudo, africanas, que trouxeram novos ritmos, danças, instrumentos e sentidos coletivos, fazendo da festa não apenas um evento religioso ou europeu adaptado, mas uma manifestação cultural própria, popular e profundamente ligada à história social do país.
O Carnaval brasileiro é mais do que uma festa popular. Ele é um território simbólico onde música, corpo, memória e política se encontram. Antes de ganhar arquibancadas, transmissões internacionais e cifras milionárias, o Carnaval foi rua, foi improviso e foi, sobretudo, uma linguagem de sobrevivência. Blocos, cordões e ranchos carnavalescos tomaram as cidades brasileiras como uma forma legítima de expressão popular, ocupando o espaço urbano com alegria, sátira e identidade coletiva.
É nesse cenário que a Praça Onze se consolida como o grande berço do samba urbano carioca e, por consequência, das escolas de samba. Localizada na região central do Rio de Janeiro, a Praça Onze foi ponto de encontro de negros vindos da Bahia, do Vale do Paraíba e de outras regiões do Brasil. Ali se cruzavam ritmos africanos, tradições religiosas, festas populares e uma intensa vida comunitária. Era um espaço pulsante, onde o samba deixava de ser apenas música para se tornar identidade.
No coração dessa efervescência cultural estava Tia Ciata, uma das figuras mais importantes da história do samba no Brasil. Baiana, ialorixá e quituteira, sua casa tornou-se um verdadeiro quilombo urbano. Ali nasceram sambas históricos, encontros decisivos e uma forma de organização cultural que moldaria o futuro do Carnaval.
Foi nesse ambiente que o samba se estruturou como narrativa. Diferente das marchinhas ou das músicas avulsas, o samba passou a contar histórias. Surgem então os primeiros enredos, ainda informais, que falavam do cotidiano, da ancestralidade, de personagens populares e de episódios apagados da história oficial. Nomes como Donga, Sinhô, João da Baiana e Pixinguinha foram fundamentais nesse processo inicial.
Quando surgem oficialmente as escolas de samba, o termo escola não é escolhido ao acaso. Ele carrega um sentido profundo. As comunidades negras do Rio de Janeiro compreenderam que o Carnaval poderia ser mais do que desfile: poderia ser método. Um método de ensino popular, onde se aprendia história, música, poesia, artes visuais, disciplina coletiva e liderança comunitária.
Muitos dos primeiros compositores de enredo nãotiveram acesso efetivo as escolas da epoca, outros estudaram bem pouco, mas dominavam a oralidade, a memória e a síntese narrativa. Criaram sambas que ensinavam sobre o Brasil antes mesmo de esses temas entrarem nos livros didáticos. Assim, as escolas de samba se tornaram espaços de resistência negra, preservando saberes africanos e afro-brasileiros.
Com o passar do tempo, esse modelo ganhou proporções gigantescas. As escolas cresceram, se organizaram, atravessaram fronteiras e transformaram o Carnaval em um espetáculo de alcance mundial. Ainda assim, no fundo do batuque, permanece viva a essência da Praça Onze e das casas das tias baianas.
Hoje, as escolas de samba em seus desfiles, são um dos maiores cartões de visita do Brasil. Elas movimentam a economia, encantam turistas e projetam a cultura brasileira para o mundo. Mas, acima de tudo, continuam sendo um testemunho da genialidade do Povo negros do Rio de Janeiro, e em todo o Brasil, que transformaram exclusão em arte, perseguição em linguagem e Carnaval em escola.
Portanto orgulhe-se de sua gente, de seu pais, curta essa festa divinamente alegre e punjante, beba com moderação, se beber, não dirija, e aproveite o feriado para abrir o coração e nutrir a mente.
Boa Leitura, e bom Carnaval









