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sexta-feira, 6 fevereiro, 2026

Um império sem freios

Confira o conteúdo assinado pelo empreendedor Renan Jordani

Uma definição certeira para a China seria “caleidoscópica” – pode fascinar, irritar, confundir. São 10 bilhões de quilômetros quadrados que abrigam desordenadamente em 56 etnias quase um quinto da população mundial. Economicamente falando, a China é um dragão de cabeça comunista e corpo capitalista, um dos maiores importadores e exportadores do mundo, vindo nesse ritmo de ascenção desde a reforma de Deng Xiaoping, em 1984, que afrouxou o mercado, investiu em empreendorismo, incentivou o investimento internacional, vigorou o direito à propriedade e investiu maciçamente em educação básica e superior.

O mundo sentiu o peso dos US$ 3,56 trilhões de Produto Interno Bruto durante a cerimônia oficial de abertura dos jogos olímpicos em Pequim, lá em 2008. Quem assistiu ficou extasiado; finalmente os chineses tiveram a chance que tanto esperavam para mostrar ao mundo globalizado porque consomem mais de um quarto do alumínio, um terço do aço e metade do cimento no planeta.

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Na China, tudo impressiona pela magnitude: Xangai, por exemplo, é um incandescente símbolo do capitalismo contemporâneo. E o que move uma nação dessa grandeza não é somente o consumismo ou o nacionalismo, mas a obsessão do “olho no olho”, a estratégia de sempre sair íntegro de um combate, seja no emprego, no amor ou nos negócios.

Mas nem tudo são jardins e origamis para os inventores da seda e da porcelana. Tremendamente rotulada de pirata, a pobreza por lá ainda é grande, e há uma certa falha de conceito nacional de vida organizada – o governo precisa vir em auxílio com explicações de que é necessário se aguardar um atrás do outro nas filas, que cuspir nas ruas não é educado, e que quem sai de elevadores e vagões de metrô é que tem a preferência. Os relacionamentos públicos ainda são um tabu, e certas práticas antigas são criticadas, como o fuzilamento, punição destinada aos condenados de corrupção e estupro, dentre outros crimes. Um tiro certeiro na nuca, e ainda é a família quem paga a bala. Como um país que inventou o papel, a pólvora e a bússola (então teoricamente avançados para sua época) pode ainda continuar com práticas tão retrógradas?

Recentemente todos acompanharam o embate comercial entre China e Estados Unidos. Trump impôs tarifas exorbitantes visando encarecer as importações chinesas, argumentando que era preciso reverter o déficit comercial, proteger os produtores locais e forçar a China a mudar práticas consideradas desleais. A retaliação veio com tarifas sobre produtos americanos, também para reduzir a dependência chinesa do mercado americano. Globalmente, a disputa desacelerou o crescimento econômico mundial, afetando cadeias de suprimentos e aumentando a incerteza para empresas e consumidores. Os EUA perderam competitividade em tecnologia e teve prejuízos na indústria nacional. A China reduziu as exportações aos EUA, diversificou seus parceiros comerciais e aumentou exportações para outras regiões. Juntos, os dois países representam uma enorme parcela da economia global – cerca de 43%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Por mais opiniões divergentes que sejam formadas, qualquer conclusão precipitada soaria incoerente e parcial. Ainda mais se tratando de um império milenar supersticioso, onde os prédios não têm o 4°, 14° e 24° andares, já que o número quatro tem o mesmo som de morte nos ideogramas chineses. O mais sensato a fazer mesmo é o caminho da diplomacia. Ou abrir caminho para esse dragão desgovernado que vem aí, descendo a ladeira como uma carreta sem freio, antes que comece a cuspir fogo e queime toda a concorrência que encontrar pela frente.

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@eujordani

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