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quinta-feira, 8 janeiro, 2026

Viajar aos Estados Unidos por apenas 10 dias foi suficiente para reforçar uma convicção: o SUS é uma das maiores conquistas civilizatórias do Brasil

Confira o conteúdo assinado pelo médico Alessandro Ferrari Jacinto

Costumamos criticar o Sistema Único de Saúde a partir de suas falhas — filas, demora, subfinanciamento — e muitas dessas críticas são legítimas. No entanto, a experiência concreta de estar em um país onde a saúde funciona majoritariamente como mercadoria muda o eixo da reflexão.

Nos Estados Unidos, o acesso à saúde não é um direito garantido, mas uma transação. Consultas, exames simples ou atendimentos de urgência podem custar valores proibitivos, mesmo para quem trabalha e possui seguro. A lógica não é a da proteção coletiva, mas a do risco individual. A pergunta implícita não é “qual é a sua necessidade?”, mas “qual é a sua cobertura?”.

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O SUS, apesar de suas limitações, parte de um princípio radicalmente diferente: a vida vale mais do que a capacidade de pagamento. Ele garante vacinação em massa, atenção primária territorial, acesso a medicamentos, transplantes, tratamento oncológico e cuidado contínuo a pessoas com doenças crônicas. Tudo isso em um país continental, desigual e envelhecendo rapidamente.

Para quem observa com atenção o cuidado ao idoso, essa diferença é ainda mais evidente. Sistemas baseados no mercado tendem a excluir justamente aqueles que mais precisam: os frágeis, os dependentes, os que acumulam doenças e custos. O SUS, com todas as suas imperfeições, ainda é o principal sustentáculo da dignidade na velhice para milhões de brasileiros.

Viajar não serve apenas para conhecer lugares, mas para reposicionar valores. Ao comparar sistemas, fica claro que o maior problema do SUS não é sua existência, mas o seu subfinanciamento crônico e a falta de reconhecimento social de sua importância.

Defender o SUS não é negar seus problemas. É compreender que, sem ele, o Brasil seria um país muito mais injusto, mais doente e mais cruel. Em tempos de discursos simplificadores, a experiência concreta lembra: saúde como direito não é luxo — é escolha ética e política.

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