Passei a infância e pré-adolescência lendo os poetas e escritores românticos da nossa literatura, extasiando-me com as metáforas vibrantes da poesia condoreira de Castro Alves; as idílicas paisagens das virgens matas de José de Alencar; o heroico indígena a saltar da pena privilegiada de Gonçalves Dias; a candura do lar e as recordações da infância nos versos sentidos de Casimiro de Abreu; os belos tipos femininos (Helena, Iaiá Garcia…) a desfilarem nas páginas imortais do mestre Machado de Assis; etc.
Entrando na adolescência e avançando para o ginasial, na direção do colegial e dos preparatórios aos vestibulares, tomei contato com todas as demais escolas literárias, não somente as posteriores, como também as anteriores ao romantismo. Neste caso, li não apenas os autores brasileiros, mais ainda os portugueses e, evidentemente, outros representantes da literatura universal, traduzidos para o português.
Nessa trajetória, deparei-me, não só com verdes mares e virgens de lábios de mel, como também pedras, cactos, seca, cortiços, sertões, caatingas, pampas, selvas (inclusive de concreto), mares, baleias, cavaleiros/cavalheiros, damas, soldados, solidão, metamorfose, enredos surreais, poesia abstrata/concreta, contos macros/micros, crônicas da vida pública/privada, artigos de fundo/de frente…
Deparei-me com discussões sobre se a arte é inspiração ou transpiração, legível ou hermética, sentimental ou cerebral, natural ou artificial — “o poeta é um fingidor“ (Pessoa); ou simplesmente espontânea e instintiva, brotando dos mais inusitados lugares, momentos e personagens, reais ou fictícios.
Depois de tudo, já no descambar do sol em direção ao poente, quando me faltam tempo e disposição para duelos ideológicos, aparece-me essa criatura denominada “inteligência artificial” que, segundo os entendidos, é capaz de, com três palitos (ou, melhor, “prompts”), escrever um poema épico que faria Camões ressurgir enciumado dentre os mortos/imortais. Até parece!…
No fundo, duvido que essa IA fosse capaz de imaginar “Taprobana” se o autor d’Os Lusíadas não a tivesse mencionado antes! Ademais, faltaria à IA a sensibilidade descritiva de Alencar em sua prosa poética “Iracema”. Exigir dela, então, um novo “Grande Sertão: Veredas”, seria pedir demais! Até onde sei, ela trabalha com dados pré-existentes, com os quais é alimentada. Nada cria do nada.
Só quem viu, viveu e sentiu a essência do tempo pode escrever uma prosa ou poesia capaz de resistir à obsolescência do passado, impor-se diante das artificialidades do presente e sobreviver aos prognósticos apocalípticos do futuro. Os modismos costumam ter prazo de validade muito curto.
Vamos ver até onde a IA consegue caminhar sem os humanos. Uma coisa é certa: a verdadeira literatura não se faz com inteligência artificial. Requer inteligência natural, humana, consciente e emocional, que só a tem as pessoas que sangram e sentem dor!






