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sábado, 21 fevereiro, 2026

Chá revelação: BRAZILCORE x GERAÇÃO Z – os novos rumos

Confira o conteúdo assinado pela ativista Meire Cunha

Querido leitor, quero desde já esclarecer que a fruta nunca cai muito longe do pé, e dessa forma não consigo ignorar o desenrolar da história, é por isso que vamos fazer um rápido giro historiográfico em nossa reflexão de hoje.

E tendo dito isso, vamos nos lembrar que durante séculos, a história foi escrita a partir de um único ponto de vista. A Europa não era apenas um continente, era o centro simbólico do mundo. A historiografia eurocêntrica transformou sua trajetória em régua universal de civilização. Modernidade, progresso, racionalidade e desenvolvimento tinham endereço fixo. O restante do planeta era medido pela distância que o separava desse padrão.

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Nas Américas, o processo de colonização não foi apenas territorial. Foi violento, manipulador, e anti-identitário.  Povos originários foram dizimados, culturas africanas escravizadas foram violentamente deslocadas, e o Brasil nasceu sob uma lógica de subordinação estrutural. Desde o início, aprendemos que o “modelo correto” vinha de fora.

A independência política não rompeu essa mentalidade. Permanecemos olhando para o exterior como referência. Primeiro para a aristocracia europeia. Depois, para o ideal industrial e de consumo excessivo.

A Segunda Guerra Mundial abalou a Europa e encerrou um ciclo de supremacia aristocrática e tradicional, em que das vestimentas a maneira de se alimentar era usadas para demarcar um sistema de classes. Mas o centro do mundo não desapareceu. Apenas mudou de endereço. Os Estados Unidos assumiram o papel de financiador global e potência hegemônica. O ideal deixou de ser aristocrático e passou a ser consumismo, exibicionismo, e criou-se uma nova ilusão, a Meritocracia. Difundiu-se a promessa de que pela exaustão no trabalho, que quanto mais árduo e incessante, trazia a promessa de recompensa, a recompensa era o consumo.

O Brasil trocou o modelo da tradição pelo modelo do mérito e consumismo.

A mensagem era clara: trabalhar exaustivamente traria recompensa. O esforço seria convertido em bens, status e reconhecimento. A produtividade passou a ser confundida com valor humano. O consumo tornou-se símbolo de vitória pessoal.

Mas essa transição não foi neutra. A cultura do desempenho adoeceu gerações. Jornadas extensas, pouca segurança emocional e pressão constante tornaram-se rotina. O indivíduo passou a se enxergar como número, não como sujeito.

E depois desse giro historiográfico, partimos para o que de fato vamos reflexionar hoje.

Após a derrota do Brasil na Copa do Mundo de 1950, no Maracanã, o escritor Nelson Rodrigues cunhou a expressão “síndrome de vira-lata”. Ele descreveu um sentimento de inferioridade nacional diante do estrangeiro. Para ele, o brasileiro entrava em campo já derrotado, convencido de que o outro era superior.

Não se tratava apenas de futebol. Era um diagnóstico cultural. A tendência de buscar validação externa para legitimar aquilo que já existia internamente, vimos esses reflexos em marcas brasileiras, e na arte nacional como a Bossa Nova, que só passou a ser aplaudido pelos intelectuais de dentro do Brasil, apenas depois de ser cantando em Nova York.

Enquanto uma camada social sedenta por pertencer a uma elite imaginaria importava referências, outra parcela do país lutava para sobreviver. A maioria marginalizada, sem acesso a consumo internacional, não podia importar cultura. Precisou criar a própria.

Da periferia vieram o samba e as escolas de samba. Da resistência afro-brasileira nasceu a capoeira, o funk emergiu como linguagem urbana contemporânea, a moda e metodologia de consumo que se mesclava com conhecimentos ocidentais e orientais. A sincretização religiosa uniu matrizes africanas, indígenas e europeias em uma espiritualidade singular. Surgiram formas próprias de moda, da renda portuguesa a tintura Indiana.  De falar, de receber e de negociar, unindo todas as culturas que foram se aglomerando nesse território, e quando digo cultura, falo de povos, e além disso, pense em seres humanos, pessoas individuais, cada qual com a sua verdade e necessidade interior.  O povo, a base da pirâmide, os que precisavam, comer, beber, vestir, coexistir em um cenário dolorosamente separativista. Nascia o improviso, o “dar meu jeito”, o “fazer como der”. Nasceram formas de organização peculiares e mista, estava sendo edificado uma solida ESSÊNCIA BRASILEIRA.

O chamado “jeitinho brasileiro” tornou-se tecnologia social de sobrevivência.

Em 1997, no Rio de Janeiro, o gari Renato Sorriso limpava a Marquês de Sapucaí quando começou a dançar com a vassoura. A plateia o ovacionou. Ele simbolizava resiliência e alegria incorporadas ao cotidiano.

O mundo, porém, por gerações permaneceu, buscando a perfeição continuou adoecendo, corpos e mentes, numa corrida utópica, que jamais chegaria a um fim.

A Geração Z (1996- 2012), cresceu ouvindo histórias de pais e avós que trabalharam a vida inteira para conquistar estabilidade material. Herdaram o cansaço estrutural. Ao mesmo tempo, nasceram em um mundo hiperconectado e homogêneo.

Diante disso, autenticidade virou moeda rara.

Essa geração busca propósito, flexibilidade e saúde mental. Não quer esperar a aposentadoria para viver.

É nesse contexto que surge o chamado “Brazilcore”. Não apenas como estética verde e amarela nas passarelas, mas como reconhecimento internacional de uma identidade construída na mistura e na adaptação.

Sandálias de borracha, crochê, biojoias feitas de sementes, cores vibrantes e expressões culturais periféricas passaram a ocupar vitrines globais.

O que antes era visto como improviso passou a ser entendido como autenticidade.

A palavra BRAZILCORE, em tradução livre, é algo como “Essência Brasileira”, que aos olhos dessa nova geração que dá valor a atitudes com baixos impactos socio ambientais, e que buscam se conectar fora das redes, mas em identidade, parece eleger a forma de viver do brasileiro como um objeto de desejo, um exemplo a ser seguido, ou um modus vivendi sonhável.  No último ano o Brasil recebeu cerca de 9 milhões de turistas, ávidos por desvendar o segredo do viver brasileiro, é como se o nosso país esteja assumindo o papel de PARADA OBRIGATÓRIA, aos viajantes do globo terrestre. As sandálias de borracha clássicas, ela mesmo, as Havaianas, que era simbolo de poucas posses a 30 anos atrás, foram mais comercializadas como objeto de desejo em países do mundo todo, liderando o ranking global lyst Index a frente de marcas consagradas. Caro leito, o BRASIL está na moda, podemos assumir que é Chic ser brasileiro e não desistir nunca.

Não nos esqueçamos porém, que ainda somos vistos, como o primo diferente e descolado, que todo mundo gosta, mas poucos levam a sério, o Brasil é gigante, e com gigantes problemas, e como temos problemas, claro, que temos soluções, e esse é um ponto importante para se investir. Quem sabe nossos dirigentes consigam aproveitar essa visibilidade nacional em território internacional, como na moda, na arte, no turismo, para investir em desenvolvimento de nossas industrias, e acordos de transferência de tecnologia, ampliação dos investimentos em estudos e  pesquisas e desenvolvimento, e em um doce sonho de verão a tão antiga e pouco falada Reforma Agrária – Mas essa, gentil leitor,  é tema para nossa próxima reflexão –  Talvez estejamos assistindo ao fim de um ciclo de auto sabotagem, talvez não. Depois de séculos olhando para fora em busca de aprovação, o Brasil descobre que o mundo agora olha para dentro em busca de referência. Referência essa que nasce, cresce, implementa e se desenvolve a partir da base da pirâmide. Do brasileiro que não desiste nunca, e que não irá mudar de país, que entendeu que sua construção individual é parte integrante de uma edificação muito maior.

Que sirva de dica para nossos novos políticos, que embora novos, foram curtidos, marinados, e cozidos na pura seiva de uma política antiga, pseudo aristocrática, apesar da Democracia, como disse Belchior em 1973, e foi eternizada pela voz de Elis Regina – “É você que ama o passado, e que não vê, que o Novo sempre Vem”.

O novo chegou, e essa humilde escritora, se atreve aqui a dar sua sincera opinião:

Embora como humanos, o que todo somos, sejamos diariamente impelidos ao saudosismo de um passado muitas vezes nem tão distante, e todos nós de vez em quando soltamos aquela máxima, clássica “ No MEU tempo que era bom”, devemos aceitar que o os tempos mudam, a vida se adequa a cada instante de necessidade, e as novas gerações tem sim, muito a contribuir com o bem estar e estabilidade de todos. São novos ciclos que se abrem.

Como aprendi com os povos Acã, no adinkra SANKOFA, estaremos sempre no presente, não importa a qual tempo. O Passado é imutável livro de recordações, e o futuro é construído a todo tempo.

Querido Leitor, tenha um excelente final de semana, beba água e contemple a sua Essência brasileira. Você está na moda!

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