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quarta-feira, 18 fevereiro, 2026

“Corredor da fome”. Qual a origem dessa expressão que não reflete a nossa realidade?

Como o mal jornalismo contribuiu para cunhar uma expressão que não reflete a nossa realidade.

Trecho onde estão instalados os presídios sediados na Nova Alta Paulista. Fonte: GoogleMaps

Cunhada logo após a geada de 18 de julho de 1975, a expressão “corredor da fome” foi assimilada por autoridades e formadores de opinião. Não condizente com a nossa realidade, a tal expressão não passa de mais uma marca nefasta do mal jornalismo. Na época, o jornal O Estado de São Paulo captava notícias do interior por meio de correspondentes radicados nas chamadas capitais regionais e esses, por sua vez, tinham colaboradores espalhados nas cidades menores. Numa tentativa de síntese, a expressão foi cunhada para traduzir os impactos da geada, principalmente sobre os cafezais da região e as inevitáveis consequências decorrentes da intempérie, entre elas, o intenso êxodo rural.

Sem reflexão crítica e com poucas informações oficiais codificadas sobre o perfil identitário regional, foi mais fácil incorporar a tal expressão, usando-a como trunfo em solicitações junto ao governo estadual. Criada pela mídia, a expressão foi difundida por autoridades e exaustivamente reproduzida pela população. Ainda hoje, é comum ouvir as pessoas referirem-se à Nova Alta Paulista como “corredor da fome”. Por ter surgido num momento difícil do desenvolvimento socioeconômico regional, a expressão impactou a autoestima de muitas pessoas, inclusiva, de formadores de opinião. Vitimismo, no entanto, nunca gerou prosperidade.

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Mais recentemente, outra denominação foi cunhada: corredor dos presídios. Entre Osvaldo Cruz e Tupi Paulista, são 12 presídios num raio inferior a 100 quilômetros. Como há cidades com mais de 1 presídio, a distância média entre um e outro é de 11 quilômetros. Cerca de 15 mil detentos povoam as unidades prisionais da região (SAPP, 2025).

Sendo o desenvolvimento uma via de mão dupla, falta-nos refletir sobre políticas compensatórias e políticas afirmativas referentes à recepção desses presídios. Algo que vá além da folha de pagamento dos funcionários estaduais e se efetive na prevenção da delinquência e do crime.

Criada em 1977, a Associação dos Municípios da Nova Alta Paulista (AMNAP), principal representação política entre os municípios e as instâncias governamentais superiores, fez e faz várias gestões em favor das demandas regionais, porém, efetivamente, não se têm resultados altamente relevantes para os cerca de 390.000 habitantes das trinta cidades que a compõem. Não temos a materialização de mudanças paradigmáticas que impactem o desenvolvimento local e regional. Experiências bem-sucedidas mostram a eficácia da criação de agências multisetoriais de desenvolvimento tanto local quanto regional, agregando poder público, empresariado, universidade e sociedade civil organizada. Faltam-nos também propostas mais ousadas e embasadas na caracterização natural e socioeconômica regional.

Essa estratégia permite a definição de prioridades na composição de planejamentos, que, via de regra, se aplicam e se estendem a períodos mais longos. Isso permite a formação de um corpo técnico qualificado, captação de recursos, correção de rumos e, principalmente, continuidade. A ação política dos prefeitos e demais autoridades constitui o amálgama que une os segmentos, transformando as iniciativas em propostas exitosas. O bem comum como objetivo maior e o suprapartidarismo como princípio.

Prof.ª dr.ª Izabel Castanha Gil

  • Centro Universitário de Adamantina/FAI
  • Coordenadora da CPL do Jatobá
  • [email protected]

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