28.3 C
Adamantina
quarta-feira, 4 fevereiro, 2026

Fantasmas da memória

Confira o conteúdo assinado pelo jornalista Rubens Galdino da Silva

Levantei-me de manhã. Depois de fazer minha higienização diária, fui à mesa da cozinha. Não havia ninguém. Ainda era muito cedo. Ao olhar sobre a mesa, vi um espelho. Fiquei surpreso. Pensei, com meus botões:
— Será que alguém invadiu a casa durante a noite?

Como não havia indícios, preferi aceitar a ideia de que, talvez, de forma inadvertida, eu mesmo tivesse colocado o espelho sobre a mesa na noite anterior. Aliás, esquecer-se dos feitos imediatos é uma característica das pessoas idosas.

- Publicidade -

Logo me conformei com a rápida conclusão a que cheguei. Apressei-me a observar a mim mesmo no espelho, tentando me autodefinir. Não demorou para que a imagem refletida me incomodasse. Algo parecia destoar. Então pensei:
— A idade chegou, e a fatura do tempo também.

Aprendi, antes mesmo de ter lido Platão, que é da natureza do espelho mentir sutilmente ou confundir. Quase sempre, tudo de forma bem-educada. Nada agressivo, que pudesse despertar meu sentimento de impensada rejeição. Ainda assim, o inconformismo estava instalado e instigante.

O desejo de me livrar dele veio imediatamente. Impotente para fugir de mim mesmo, mergulhei na tela das recordações. Passei a observar com mais atenção os detalhes da imagem refletida. Curioso é que cada detalhe guardava a pujança da minha vida jovial.

A juventude é um prêmio que desconhece o próprio valor. Nela, a mentira do desejo exerce força quase irresistível. Criam-se verdades como se já estivessem lá antes do nosso nascimento. Nesse cenário de lembranças, o espelho passa a funcionar como um juiz silencioso. Ele reflete cenas da vida nas quais as rugas do tempo quase sempre geram sentimentos de arrependimento.

Sentimentos do quê? Ambíguos, como sempre. Dores, às vezes, pelos estragos ou pelas decisões que nunca foram tomadas. Operam à semelhança de um torturante tribunal de foro íntimo. Pressionado por olhares e vozes altivas, de tom acusatório, o desejo muda de direção.

A essa altura, a consciência de mim para comigo mesmo, aturdida pelos fantasmas da autoacusação, passa a buscar saídas. O espelho começa a funcionar como fonte de sonhos à procura de uma zona de conforto, lembranças recônditas da vida uterina. Assim, sem abandonar sua posição acusatória, o espelho ilumina a imaginação. Põe em movimento o gosto pela manipulação como ponte de salvação. As circunstâncias passam a instrumentalizar técnicas de auto e hétero manipulação.

Dessa forma, inicia-se a manipulação de mim mesmo como fonte de pacificação. Trata-se de um jogo de regras aleatórias, ditadas pela ética das circunstâncias. Nesse jogo, movido pelas cores do acaso, a mentira transforma-se em narrativa da verdade — sustentada não pela veracidade, mas pela necessidade de convencimento, a serviço dos interesses de quem dela faz uso.

Depois, pacificado com meus próprios fantasmas, num estalo quase mágico, meus olhos se desviam do reflexo no espelho. Viro-o do avesso. Respiro fundo e, mansamente, expiro o ar tóxico que inflara meus pulmões. Aplico um colírio nos olhos, tomo meu café da manhã e sigo em frente como se nada tivesse acontecido.

A vida retoma seu cotidiano. O olhar no espelho foi apenas um descuido, um cochilo e presságio de uma noite mal dormida. Afinal, ainda acredito que a vida vale a pena. Para que me torturar por algo que não tem reparo, e nunca terá? O passado se apaga sem nada pagar. Basta deixá-lo estar como está. Nesse contexto, a ignorância de mim mesmo funciona como um santo remédio, capaz de curar definitivamente a dor insana de uma alma ofegante.

Enfim, não se pode esperar grandes mudanças de um tribunal de foro íntimo. Apenas espasmos esporádicos, como os de uma refeição mal digerida. Que sejamos capazes de reduzi-lo a um exercício terapêutico para a leveza da nossa frágil alma. Talvez esse seja um caminho sereno: abraçar os incômodos fantasmas e caminhar em frente com eles.

Publicidade