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sexta-feira, 27 fevereiro, 2026

Juiz de Fora sangra, Adamantina alerta: a urgência da drenagem urbana frente à nova era climática

Confira o conteúdo assinado pelo engenheiro Daniel Robles

As manchetes recentes sobre Juiz de Fora, Minas Gerais, pintam um quadro desolador, dezenas de vidas perdidas, centenas de desabrigados e comunidades inteiras devastadas por chuvas incessantes e suas consequências brutais – enchentes e deslizamentos. Longe de ser um evento isolado, essa tragédia é um doloroso sintoma de uma realidade que se impõe: as mudanças climáticas estão redefinindo a paisagem urbana do Brasil, expondo as falhas de um planejamento que, muitas vezes, falha em dialogar com a natureza, e principalmente a negligência dos gestores públicos para com a engenharia urbana. A lição de Juiz de Fora, com seu alto número de habitantes em áreas de risco e sua infraestrutura sobrecarregada, é um espelho para outras cidades, incluindo Adamantina, que precisam repensar urgentemente suas estratégias de resiliência.

JUIZ DE FORA: O PREÇO DA NEGLIGÊNCIA URBANA E CLIMÁTICA

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Os números são frios, mas a dor é palpável: 58 mortos e 5 desaparecidos nas enchentes que varreram a cidade. Cerca de 440 pessoas perderam seus lares, juntando-se a um contingente de aproximadamente 130 mil moradores que, segundo alertas do Cemaden de 2025, vivem em áreas de risco na cidade. Esses dados expõem uma vulnerabilidade crônica, acentuada pela fúria de temporais intensificados pelas mudanças climáticas. O “alerta vermelho” do Inmet não deixa dúvidas: a frequência e severidade das chuvas extremas são uma nova constante.

A geografia acidentada de Juiz de Fora, com suas encostas e vales, agrava o cenário. A ocupação desordenada de áreas sensíveis, a impermeabilização do solo que impede a infiltração da água e a falta de infraestrutura de drenagem adequada transformam cada gota de chuva em uma ameaça. Pequenos comerciantes relatam ter perdido tudo pela segunda vez, uma mostra da recorrência de um problema que insiste em ser ignorado.

A VOZ DA ENGENHARIA URBANA: ALÉM DO PALIATIVO

Diante desse cenário, a discussão sobre a drenagem urbana emerge como peça central. Investimentos em drenagem é, na realidade, uma questão sensível e essencial para as cidades, mas investimentos em planejamento urbano trazem equilíbrio entre infraestrutura, urbanismo e sustentabilidade.

A concretagem de canteiros centrais, não pode ser o debate central da sustentabilidade e ponto nevrálgico no que tange ao escoamento de águas, a experiência de Juiz de Fora reforça que a resposta não está em paliativos, mas em um caminho necessário que deve priorizar obras estruturantes que resolvam as causas dos problemas de alagamento.

A solução começa na realização de estudos hidrológicos e topográficos, que norteiem projetos de engenharia urbana adequadamente dimensionados, ou seja, que considerem o comportamento das bacias de drenagem. Tais intervenções, que muitas vezes passam despercebidas no dia a dia, revelam todo seu valor em momentos de crise, protegendo vidas e bens. A boa engenharia é aquela que deixa cicatrizes positivas na cidade e alivia as preocupações de seus cidadãos.

A tragédia em Juiz de Fora não é um prenúncio distante, mas um espelho para Adamantina e inúmeras outras cidades brasileiras. Nosso município, embora com características diferentes, não está imune aos desafios impostos pelas mudanças climáticas e pelo legado de um crescimento urbano que nem sempre priorizou a sustentabilidade. Ruas alagadas após chuvas intensas, sistemas de drenagem sobrecarregados e a necessidade permanente de preservar áreas verdes são realidades que compartilhamos.

É fundamental que Adamantina aprenda com as duras lições de Juiz de Fora. Isso significa:

  • Planejamento integrado e de longo prazo: Urge a revisão do Plano Diretor para incorporar, de forma robusta, planos de gerenciamento de riscos e adaptação climática.
  • Investimento em infraestrutura verde: Priorizar soluções baseadas na natureza, como a criação de bacias de retenção, parques lineares, telhados verdes e pavimentos permeáveis que aumentem a capacidade de absorção do solo.
  • Manutenção preventiva e modernização da drenagem: Os sistemas existentes precisam ser constantemente monitorados, limpos e, onde necessário, ampliados e modernizados para lidar com os volumes de chuva cada vez maiores.
  • Reassentamento e proteção de áreas de risco: Identificar e gerenciar áreas de risco, com políticas claras de não ocupação e, quando necessário, realocação segura de famílias.
  • Engajamento cívico: A conscientização da população sobre a importância da preservação ambiental e da destinação correta do lixo é vital para a eficácia de qualquer medida.

Que a dor de Juiz de Fora sirva como um catalisador para que Adamantina e seus líderes abracem esse compromisso. O futuro da nossa cidade, em um clima que se mostra cada vez mais imprevisível, dependerá diretamente das escolhas de planejamento e engenharia que fizermos hoje. Não podemos esperar que a próxima tempestade nos encontre despreparados.

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