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Adamantina
quinta-feira, 5 fevereiro, 2026

O passado supera o presente: Carnaval deixa de ser tradição e vira improviso

Confira o conteúdo assinado pelo jornalista Eduardo Graboski

Nasci e cresci em Adamantina. Mesmo morando longe, continuo acompanhando a cidade de perto. Trabalho com mídia, entretenimento e grandes eventos, e talvez por isso eu perceba com mais clareza o quanto algumas escolhas fazem diferença, para o bem ou para o mal.

A programação de Carnaval anunciada pela prefeitura é um exemplo disso. Fraca, tímida, sem planejamento. Um Carnaval que parece feito apenas para cumprir tabela. E é inevitável pensar: é triste quando o passado supera o presente.

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Quem viveu os anos 90 sabe do que estou falando. Adamantina tinha Carnaval de verdade. Não era “um trenzinho” ou uma matinê improvisada. Era programação de vários dias, palco cheio, praça lotada, famílias nas ruas. Era tradição passando de pai para filho, sou prova disso.

Nos anos 2010, esse espírito voltou com força no pré-Carnaval. Houve organização, parcerias, divulgação antecipada. A cidade respirava festa popular. O comércio girava, bares vendiam mais, ambulantes trabalhavam, jovens ficavam na cidade em vez de viajar. Ainda nos anos 2020, era tradição.

O Carnaval deixava de ser gasto e virava investimento. Hoje, o cenário é o oposto. Programação divulgada praticamente na semana do evento, sem tempo para criar expectativa, atrair visitantes ou até permitir que o próprio morador se organize. Isso não é só falta de verba. É falta de planejamento, prioridade e visão. É falta de coragem, de atitude. Aliás, é assim que a cidade caminha.

Quando a agenda sai em cima da hora, a mensagem é clara: “Estamos fazendo porque precisamos fazer.” E cultura não pode ser tratada como obrigação burocrática, nem com desprezo. Cultura também é política pública.

Sempre surge a comparação com saúde, educação ou segurança, como se lazer fosse luxo. Não é. Cultura é pertencimento, é ocupar a cidade, é gerar renda, é oferecer opções para quem não pode viajar mais de 500km até o Carnaval de São Paulo, por exemplo, ou pagar ingressos caros. Para muita gente, a festa pública é o único entretenimento possível.

Quando isso enfraquece, não perde só o folião. Perde o comerciante, perde o jovem, perde a economia local, perde a autoestima coletiva. Perde a cidade inteira. Não é sobre nostalgia. É sobre gestão. Adamantina já provou que é possível fazer melhor, inclusive com menos recursos. O que falta hoje não é estrutura. É decisão. É vontade política.

A sensação é de uma administração que vive no modo avião, desconectada da própria tradição. E isso é frustrante, porque o potencial continua lá: praça, público, história e memória afetiva. Adamantina sempre teve vocação para festa popular. Merece um Carnaval à altura dessa história. Porque quem já viveu os grandes carnavais da cidade sabe: quando há planejamento e vontade, a festa acontece.

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