Ao longo dos séculos, a Igreja Católica Apostólica Romana guarda o tesouro do Cristianismo. Movida segundo o Espírito, sustenta-se sobre uma mesa de três pés: Tradição, Magistério e Escritura. Dessa forma, a Igreja se reúne em torno do “mistério” e, por ser mistério, “não pode ser explicado” (cf. Santo Agostinho, Sermo 52, 6, 16). Ainda assim, não explica plenamente os mistérios humanos, que devem ser esclarecidos não ao mundo, mas aos seus fiéis.
A Igreja Católica possui muitas riquezas, sejam elas materiais ou espirituais. No centro da fé está a Trindade, modelo de comunhão, participação e missão, espelho para os fiéis que seguem a doutrina. Dentre os valores a serem destacados, estão alguns preservados quase de forma incorruptível, como o segredo de confissão, o casamento como união indissolúvel, o posicionamento contra o aborto, a castidade, o celibato de seus sacerdotes, entre outros. Esses pontos podem ser chamados de doutrina, mas antes de serem doutrina, são considerados valores da fé.
Ao longo dos séculos, a Igreja ocupou posicionamentos na comunidade global que levam a profundas reflexões. A comunidade que teve seus patriarcas assassinados, como Pedro, crucificado; Paulo, decapitado; e outros apóstolos, com exceção de João, o discípulo amado, martirizados, passou de perseguida a perseguidora. Desde a conversão do imperador Constantino, a Igreja que até então, com coragem, se entregava por amor a Cristo, passou, por esse mesmo amor, a justificar mortes.
A mesma comunidade que tinha tudo em comum e, por isso, repartia com alegria (cf. At 2,44-47), não mais vivia nos casebres. Nasceram os palácios, descaracterizando os pastores que eram homens simples e que agora passaram a ser príncipes.
Dessa forma, os valores da comunidade primitiva se esvaziaram, dando lugar ao poder, ao prazer e ao ter do homem. É verdade que, ao longo dos séculos, a Igreja teve homens e mulheres comprometidos com os ideais dos primeiros cristãos, que não seguiam ao Cristo poderoso, mas escolhiam o Menino que nasce em Belém, que trabalhava na carpintaria e que, conforme narram os evangelistas, adentra Jerusalém sobre um jumento (cf. Mt 21,1-11; Jo 12,12-15).
Essa Igreja, ao mesmo tempo em que suscita pastores com cheiro de ovelhas, como afirmou o Papa Francisco (cf. Papa Francisco, Homilia da Missa Crismal, 28/03/2013), também forma lobos, que por algum momento perderam o desejo de ser pastores. Como outrora, a comunidade simples, que vivia e livremente se entregava por Cristo, agora, pelo sentimento de poder, prazer e ter, se esconde atrás da pele de pastor, sendo um lobo feroz e sempre pronto para devorar.
A vaidade, um dos sete pecados capitais elencados pela própria Igreja, é a sombra dos lobos que se vestem de pastores. Já não há mais o desejo de viver para se entregar, mas sim de viver para ganhar. E não se trata do ganho da vida eterna, mas de se dilacerarem entre si pelos bens que se corrompem.
Com o passar dos séculos, muitas foram as vozes silenciadas pela própria Igreja, que por vezes justificava como prudente tal atitude. Silenciava os pastores que desejavam ver a libertação das ovelhas e o protagonismo do rebanho, e elevava a voz dos lobos, que destruíam e devoravam lentamente o rebanho a eles confiado.
Hoje, a Igreja do século XXI muitas vezes não tem o rosto da comunidade primitiva. Expressa, pelos seus atos, mais a face da Igreja perseguidora do que o semblante dos perseguidos. É uma Igreja que condena o mundo em tempo real, mas guarda seus próprios erros de forma passiva, incoerente e irresponsável. Uma comunidade rápida em punir o leigo, mas lenta para punir o clérigo.
É uma Igreja que não trata como deveria os seus abusadores, mas que condena prontamente os homossexuais. Uma Igreja que condena o uso abusivo do dinheiro por parte do mundo, enquanto alguns de seus membros nadam nas moedas dos pobres, que com tanta caridade doam para o bem da sua comunidade.
Que tipo de mãe tem sido a Senhora? Será que é como a mãe de Jesus, pobre e simples, que cortava lenha e amassava pão, que não silenciava, mas meditava em silêncio (cf. Lc 2,19)? Ou a Senhora está sendo uma madrasta cruel, que defende apenas seu marido e judia dos seus enteados?
De qual Igreja faço parte?

Referências
Santo Agostinho, Sermo 52, 6, 16: “Si comprehendis, non est Deus.” (Se compreendes, não é Deus.)
Atos dos Apóstolos 2,44-47: “Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum.”
Evangelho de Mateus 21,1-11 e João 12,12-15: Entrada de Jesus em Jerusalém montado num jumento.
Papa Francisco, Homilia da Missa Crismal, 28 de março de 2013: “Estejam pastores com cheiro de ovelha.”
Lucas 2,19: “Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no seu coração.”









