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terça-feira, 24 fevereiro, 2026

Quem paga a conta das políticas públicas?

Confira o conteúdo assinado pelo engenheiro Osmar Pereira da Silva Junior

No Brasil, toda política pública voltada ao atendimento da população mais pobre, seja na área de renda, saúde, habitação, educação ou subsídios ao consumo, tem uma origem concreta e inescapável: o pagamento de impostos. Essa é uma verdade simples, mas frequentemente ignorada no debate público, sobretudo em períodos eleitorais, quando benefícios sociais passam a ser apresentados como atos de benevolência política, quase como favores concedidos pelo governante de plantão.

É fundamental esclarecer: políticos não “dão” nada. Não criam recursos do nada, tampouco bancam políticas públicas com patrimônio próprio. Cada programa social, cada subsídio, cada auxílio, existe porque milhões de brasileiros, trabalhadores, empresas e consumidores, pagam impostos regularmente. Em outras palavras, em toda política pública alguém sempre paga a conta. E quase sempre, essa conta recai sobre quem cumpre suas obrigações fiscais.

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Esse ponto se torna ainda mais sensível quando observamos políticas de distribuição de renda aprovadas ou ampliadas em anos eleitorais. Um exemplo emblemático é o programa conhecido como “gás para o povo”, aprovado em 2026, ano de eleição presidencial. A proposta, à primeira vista, atende a uma necessidade real: o alto custo do gás de cozinha pesa significativamente no orçamento das famílias de baixa renda. No entanto, a pergunta que precisa ser feita não é apenas quem será beneficiado? Mas também quem financiará esse benefício? E qual é a sustentabilidade dessa política no médio e longo prazo?.

Quando medidas desse tipo surgem em períodos estrategicamente próximos às eleições, é legítimo questionar se estamos diante de uma política pública estruturada ou de uma ação de forte apelo eleitoral, pensada mais para gerar engajamento político e capital eleitoral do que para resolver o problema de forma definitiva. Benefícios temporários, sem fontes claras e permanentes de financiamento, podem aliviar dificuldades no curto prazo, mas frequentemente ampliam o desequilíbrio fiscal e empurram a conta para o futuro, seja por meio de mais impostos, inflação ou aumento da dívida pública.

É preciso dizer com clareza: não se trata de ser contra políticas sociais. O Brasil é um país profundamente desigual, e programas de transferência de renda cumprem um papel relevante na redução da pobreza extrema. A crítica central está na forma como essas políticas são apresentadas e conduzidas. Quando governos, sejam de direita ou de esquerda transformam políticas públicas em instrumentos de propaganda, distorcem o debate democrático e infantilizam o eleitor.

Outro ponto pouco discutido é que, muitas vezes, os mesmos que financiam essas políticas por meio de impostos elevados também enfrentam serviços públicos precários. A carga tributária brasileira é alta, especialmente sobre o consumo, o que penaliza proporcionalmente os mais pobres e a classe média. Assim, cria-se um ciclo perverso: o cidadão paga muito, recebe pouco em serviços essenciais e ainda é levado a acreditar que benefícios pontuais são dádivas políticas, e não direitos financiados coletivamente.

Diante desse cenário, é urgente resgatar a seriedade do debate eleitoral. Eleição não é concurso de promessas, tampouco disputa de quem anuncia o maior benefício imediato. Eleição é escolha de projetos de país. É avaliar propostas consistentes, financeiramente viáveis, com metas claras, fontes de recursos definidas e mecanismos de avaliação. Utopias sem lastro econômico podem até render aplausos momentâneos, mas costumam gerar frustração, crise fiscal e instabilidade social.

O eleitor brasileiro precisa, cada vez mais, perguntar menos “o que o governo está me dando?” e mais “como isso será pago?”, “quem financia essa política?” e “quais serão as consequências no futuro?”. Só assim deixaremos de tratar políticas públicas como favores e passaremos a encará-las como aquilo que realmente são: decisões coletivas que exigem responsabilidade, planejamento e respeito a quem, no fim das contas, sustenta o Estado.

Porque, independentemente do discurso ideológico, uma verdade permanece imutável: no Brasil, não existe benefício público sem custo. Alguém sempre paga a conta. E entender isso é o primeiro passo para uma democracia mais madura, consciente e responsável.

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