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sexta-feira, 20 fevereiro, 2026

Quem se lembra de “Agente Secreto”?

Confira o conteúdo assinado pela jornalista Márcia Molina

Em julho de 1977 eu estava terminando meu intercâmbio nos Estados Unidos da América. Morava em Morgan, no estado de Minnesota, há uns 200 km de Mineápolis, Grande e bela cidade.

Na última semana, antes de embarcarmos de volta ao Brasil, recebi na fazenda onde morávamos, colegas de intercâmbio que iriam retornar comigo ao Brasil. Duas delas tinham amigos e parentes que moravam nos nossos grandes centros e que sempre mandavam notícias frescas da terrinha. Naquele dia, o que chegava era sobre a perseguição aos estudantes universitários que protestavam contra a ditadura, as torturas em andamento e o sumiço de alguns. Naquela noite, tivemos medo de voltar ao Brasil.

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Mas logo vimos, claro, que para nós não havia perigo. Éramos filhos e filhas de famílias de bem, havíamos estudado em escolas católicas e além do mais, nossos pais haviam depositado 600 mil cruzeiros (ou algo assim) para que pudéssemos sair do país (dinheiro que seria ressarcido um ano depois – era uma espécie de depósito compulsório).

De qualquer forma, aquele ano de 1977 ficou marcado na minha memória como o ano mais incrível da minha vida. Ano que me inscrevi no vestibular da PUC-SP (e passei) para fazer jornalismo. Minha inscrição aconteceu, inclusive, poucos dias depois da invasão da PUC, noite em que uma pessoa que conheci, anos depois e que se tornaria meu marido, foi preso pela turma do Coronel Erasmo Dias. “Só porque era presidente do Centro Acadêmico”.

O filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, foca sua história justamente no ano de 1977. Carnaval de 77. Interessante isso. Icônico para mim e icônico para ele. A diferença é que eu, naquela época, não tinha muita ideia do que acontecia nas entrelinhas daquela nossa história.

Kleber resolve colocar isso num roteiro em que mescla a magia do cinema, mitos e crendices (que podemos até chamar de fake news), folclore pernambucano (Kleber é de Recife) e permissividades do Carnaval. Claro que não sem alguns exageros ou licença poética, sempre necessário numa obra cinematográfica.

Kleber retrata o Brasil que muitos de nós não víamos na época (e como ele deixa claro, no final, não fazemos conta de lembrar): dos matadores de aluguel, da vingança, do preconceito, dos homens da lei que usavam seu cargo para agir de forma ilegal, da corrupção institucionalizada (desde o policial, que pede uma “caixinha” para o motorista, ao executivo de estatal que retira a verba pública para uma importante pesquisa universitária).*

No fundo, um Brasil que mudou muito pouco.

Até porque, daqueles anos 70, assim como o filho de Rodrigo (ou Marcelo) não existe muita memória. Lembrar prá quê? Então é melhor deixar a história se repetir, se repetir, se repetir… Impedindo avanços sociais, econômicos, políticos e culturais.

Sim, porque Kleber faz um filme sobre a falta de memória e um filme que coloca o próprio cinema (que é memória) no centro das atenções. É num cinema que boa parte dos diálogos acontecem. É num dos seus escritórios que ele faz seu depoimento a uma ONG (responsável pelo pouco da memória que restou), e é pela janela da sala de projeção que vemos uma das mais belas paisagens urbanas da Recife dos anos 70. É lá que vemos, entre cartazes dos filmes Tubarão, King Kong e outros sucessos da época, um cartaz de “Agente Secreto”, película de 1936, dirigida por Alfred Hitchcock, de onde Mendonça tira o nome de seu filme (que não tem nenhum agente secreto, diga-se de passagem).

O fato é que o nosso Agente Secreto, contém diversas camadas, diversas pontas de linha que podem ser puxadas e em cada uma delas, encontraremos motivos para comentar, discutir e viajar.

É um filme sobre Recife, sobre o CINEMA de Recife (com a melancólica – mas ainda salvadora constatação ao que foram reduzidos os belos prédios que abrigavam suas salas), sobre nossa triste história dos tempos de ditadura e, infelizmente, sobre o esquecimento.

Premiações e indicações: Estreou no Festival de Cannes em maio de 2025 levando o prêmio de melhor interpretação masculina e melhor direção. No Globo de Ouro levou a estatueta de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Ator para Wagner Moura. Além de inúmeros outros prêmios o Filme também já recebeu várias indicações ao Oscar 2026: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Direção de elenco (nova categoria). Wagner Moura também é indicado a melhor Ator por sua atuação no longa.

O Agente Secreto está em cartaz em Adamantina no Cine HOS. Domingos às 17 hs.

*A principal notícia dessa semana foi justamente a consequência do corte de verba para pesquisas realizadas por uma cientista brasileira, fazendo com que o País perdesse uma importante patente. Graças a essa pesquisa, pessoas com paralisia puderam voltar a andar ou se locomover.

Marcia Molina Fonseca é jornalista, formada pela PUC_SP, com pós-graduação em História da Arte pela FAAP -SP. Adamantinense de nascimento, se considera uma apaixonada pela sétima arte, acompanhando lançamentos e mostras de cinemas paralelas. Junto com o marido, Eduardo Fonseca, frequenta a Mostra Internacional de cinema de São Paulo desde seu surgimento, no final dos anos 1970.

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