Entre discursos impecáveis e verdades convenientes, a dissimulação tornou-se uma das formas mais sofisticadas de autoproteção moral na sociedade contemporânea. Recorrente em todos os níveis sociais e esferas institucionais, de acordo com as circunstâncias e motivações.
Assim, vivemos cercados de palavras “corretas”. Elas sabem onde pisar, o que evitar, a quem agradar. São palavras limpas, bem-educadas, moralmente vacinadas contra erros e contra a exposição dos nossos reais sentimentos. Antes de serem instrumentos de manipulação do outro, servem-nos de máscaras de nós mesmos para nós mesmos.
Esse jogo de disfarce recebe o elegante nome de dissimulação. Dizer que alguém é dissimulado é um jeito agradável, educado e inteligente de afirmar que ele mente, com estilo e fina ironia.
Quanto mais corretas se aparentam, menos confiáveis se tornam. Faz lembrar o dito popular: “quando o milagre é demais, até o santo desconfia”. No jogo do faz de contas, tudo é válido — desde que se preservem as máscaras recomendadas.
O filme intitulado “Fiéis” (Faithfully Yours), produção holandesa distribuída pela Netflix, tem como protagonista uma juíza e sua cúmplice amiga. Curiosamente, antes mesmo da fuga amorosa, a guardiã da lei já havia dado uma decisão polêmica. A partir desse gesto emblemático, a mentira deixa de ser apenas um acidente moral. Transforma-se em instrumento moral de autoproteção e legitimador dos “desejos puníveis”.
O filme expõe os mecanismos desse jogo discursivo: mentiras transformam-se em versões “justificadoras”, porém quase sempre nada convincentes. Nos labirintos desse edifício ardiloso, confunde-se para convencer. Produzem-se verdades do tamanho do bolso da reputação social, que cabem nele confortavelmente. É o selo institucional: garantia de que os astutos não mentem; apenas dizem o que convém.
O eixo estruturante da narrativa do filme é a sugestiva frase de George Bernard Shaw: “O castigo do mentiroso não é que ninguém acredite nele, mas que ele não consegue acreditar em ninguém” (The liar’s punishment is not that he is not believed, but that he cannot believe anyone). Imerso nas fantasias dos arranjos das palavras, o mentiroso contumaz carrega a amarga tarefa de estar policiando a si mesmo na própria fala e, ao mesmo tempo, de sentir a necessidade cética de duvidar de todos.
Assim, quando a mentira vira método, a moral social transforma-se em escola de hipocrisia. A confiança morre por excesso de “verdades”, aquelas produzidas no jogo linguístico da burocracia do poder.
Há uma consciência social que se diz correta, sensível e afinada com a moral vigente. Impecável. Vive de brilho, mas lhe faltam corpo, dor e audácia. É uma ética que não sangra nem treme. Não nasce do espanto diante do absurdo; nasce do medo da punição e do escárnio social.
O medo deixou de ser ocasião de aprendizado. Virou apenas estratégia de sobrevivência. Fingir, evitar e fugir compõem o arcabouço da dissimulação contemporânea. Onde todos dissimulam, ninguém mente, apenas se equivoca nas próprias intenções. São os chamados acordos silenciosos.
Talvez o problema não seja a mentira, mas a verdade-escudo, dita para proteger a imagem, garantir pertencimento e ocupar o lado certo do poder na História. Verdades que pedem concordância, não transformação. Classificam e rotulam. Tornaram-se mercadorias de consumo massificado.
Rubem Alves desconfiava dessas verdades sem poesia nem paixão. Não ferem nem encantam. Servem para controlar, empacotar e conduzir aos furgões da incineração da consciência. Tudo em nome de uma imaginária segurança à espera do milagre.
O filme deixa perguntas incômodas: somos fiéis a quê? À verdade que exige coragem ou às mentiras elegantes que preservam a reputação? À palavra que nos expõe ou ao discurso que nos absolve sem arrependimento?
Quiçá, a maior infidelidade do nosso tempo não seja mentir, mas dizer verdades que não despertam paixão pela vida. Em vez disso, produzem sentimentos que mudam de cor conforme as circunstâncias.
Enquanto assim for, continuaremos cercados de discursos impecáveis, porém vazios e reféns das infinitas versões da verdade. Como observava Michel Foucault, a linguagem “não é mais do que um rumor informe e fluido; sua força está na sua dissimulação”.
Assim, parafraseando Foucault, a mentira, quanto mais sofisticada e dissimulada for, mais facilmente alcança seu objetivo de se confundir com a própria verdade dos fatos. Essa força de convencimento depende muito da natureza argumentativa do discurso e da autoridade institucional que o respalde. Como exemplo, basta observar o movimento do poder institucional do STF, que se chafurda no chiqueiro do “Caso Master”.
Enfim, aprendendo com Friedrich Nietzsche, para quem a mentira é força vital e criadora, o ser humano talvez esteja condenado a mentir acreditando dizer a verdade. Até quando? Não se sabe. Provavelmente, até a própria extinção. Quem viver, verá.









