Meu primeiro passarinho
Os anos ainda eram os de 50 e o endereço confins da Rua Anchieta, quase Vila Endo. Sim, o “inconsciente coletivo” desde a mais remota ancestralidade, metaforizado por “instinto de caçador”.
Dote natural do indivíduo da espécie humana nascido macho. Fiz meu estilingue. Forquilha da árvore “leiteira”, abundante na pastagem adjacente ao “Buracão”; borracha de câmara de ar de bicicleta; malha de tira de couro; elastiquinhos tirados da mesma borracha. Ficou bom. Bornal doado pela mãe que não é bom cercear os “instintos naturais” da criança. Munição de pedregulhos roliços campeados pelas ruas e terrenos baldios. Tudo pronto, saí para minha primeira caçada. Não foi difícil achar rolinhas pousadas nos fios elétricos da rua. Como manda a técnica, aprendida nos filmes das matinês, aproximei-me sorrateira e silenciosamente o mais possível da vertical dos pássaros. Estiquei a borracha, apontei e zap! Grande caçador! Uma rolinha despencou do fio. Corri com alegria pulsante e a autoestima no céu. Até chegar ao meu troféu. Então peguei aquele corpinho leve, suave, trêmulo, indefeso, dorido, ferido. Seu olhar parecia implorante e resignado. Meu coração enterneceu-se. Meu sentimento inverteu-se. Corri para casa, curei sua ferida, protegi-a embaixo de uma peneira, supri-a com alimento e água. Meu peito, minha mente ansiando por um milagre repentino. Veio a noite e era preciso dormir. As orações foram fervorosas e dirigidas à pobre avezinha. E acordei com o coração ansioso empurrando-me para a peneira. Seu olhar, já vivo, inquieto, parecia buscar a liberdade própria de sua natureza. Peguei-a novamente, levei-a para a rua, e, com suavidade, elevando a mão, soltei-a. E ela voou…









