Pode deixar seu “Candinho”…

Confira o conteúdo assinado pelo servidor público e escritor Nivaldo Martins do Nascimento (Londrina)

(Memórias de um cronista I)

No final da década de 1970, na Rua Itararé, quase esquina com a Rua Quintino Bocaiúva, em Andradina/SP, moravam o casal Antônio e Alcina e os filhos Neuza, Nivaldo (Branco), Antônio Carlos (Nenezão) e Osmar. A família era humilde, mas muito feliz. Bastava os meninos atravessarema rua para chegar ao campo de futebol do bairro, um território livre que se estendia até a Rua Silva Jardim.

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No belo retângulo gramado, os irmãos passavam tardes intermináveis disputando peladas com os amigosAlemão, Galo, Helião, Hildebrando, Saminho, Joel, Coalhada, Popóta, Dirceu, Nardão, Tião Mota, Missão, Lobó, Cadinho, Lambreca, Pedrinho Japonês, Maí, Cosme, Damião, Manoel Messias, Sidney, Zéola, Tisco, Careca, Cutuba, Lairão, Jamilão, Nagib, Laércio, Quincas, Moretti, Pelé, Betinho e Tudíco.

Numa manhã qualquer, pedreiros chegaram, mediram parte do campo e fincaram estacas entre a trave e a lateral direita; vistas da Rua Itararé. Em seguida, um caminhão descarregou materiais de construção e uma área considerável do gramado foi cercada por arames, folhas de zinco e placas de cimento. O espaço preferido dos meninos começava a encolher.Em menos de dois meses, uma casa estava edificada no local.

O novo morador era Rafael, um poceiro (profissional que cavava poços caipiras), homem miúdo e rude, desses que parecem ter sidos moldados para a profissão escolhida. Perto dos cinquenta anos, era considerado um sobrevivente em um ofício perigoso e que costumava mandar trabalhadores desta para uma melhor muito cedo. Desabamentos e gases traiçoeiros eram os principais causadores de acidentes na dura atividade.

Com a construção da casa, a molecada teve que adaptar as peladas ao novo formato do campo. No início, a convivência foi cordial. Quando a bola caía no quintal, o poceiro a devolvia sem reclamar.  Entretanto, certa tarde uma bolada mais forte acertou uma janela. O fazedor de poços perdeu a paciência, recolheu a bola e avisou que não iria devolvê-la. Os garotos pediram desculpas, mas o homem permanecia irredutível.

Por sorte, uma viatura policial passava pelo local e os agentes decidiram intervir na discussão. O poceiro, além de se queixar das boladas, disse aos policiais que a molecada vivia ofendendo sua família.  Diante das acusações falsas, Branco não se conteve e retrucou:  “Mentiroso! O senhor não passa de um Candinho! ” Naqueles tempos, Candinho era sinônimo de fofoqueiro, um apelido que ninguém aceitava.

O poceiro ficou enfurecido com a “homenagem” recebida, e os policiais logo trataram de repreender os adolescentes, sobretudo Branco. Depois do sermão, a bola foi devolvida e a confusão, aparentemente encerrada. Acontece que a trégua mediada pelos policiais não iria durar muito. No sábado, uma bolada atingiu as placas de zinco. Desta vez, um garoto agiu rápido e conseguiu recuperar a bola antes que o poceiro chegasse. O homem perdeu a paciência e começou a xingar a molecada. A resposta veio imediata, em coro, ecoando forte pelo campo: “Candinho! Candinho! Candinho! ”

O fazedor de poços, descontrolado, pegou um porrete e partiu para o ataque. No entanto, os meninos se espalharam e o apelido Candinho ecoou cada vez mais alto. De volta à casa, o poceiro percebeu o erro que cometera. Ir à polícia poderia ser arriscado, pois tinha tentado agredir menores de idade. Propor nova trégua, iria soar como um sinal de fraqueza. Restava apelar ao bom-senso dos pais dos garotos, concluiu.

Decidido, foi até a casa mais próxima ao campo, onde moravam Branco, Nenezão e Osmar. Bateu palmas e Dona Alcina apareceu à porta.  “Boa tarde, senhora! Queria conversar com seu marido”, disse o poceiro. “Ele não está, mas o senhor pode falar comigo”, respondeu Dona Alcina. O fazedor de poços contou a sua versão sobre os conflitos com a molecada. Ao final, pediu que o casal chamasse a atenção dos filhos.

Depois de ter ouvido atentamente as queixas do fazedor de poços, Dona Alcina, com o jeito meigo da mãe que ama os filhos, mas que também sabe administrar o caos, garantiu:  “Pode deixar, seu Candinho. Assim que Antônio chegar, vamos ter uma conversa muito séria com os meninos”. De tanto escutar os filhos falarem o apelido em casa, Dona Alcina achava que Candinho era, de fato, o nome do homem. Sem dizer uma única palavra, o poceiro abaixou a cabeça e foi embora ainda mais revoltado.

Semanas depois, valetas profundas apareceram misteriosamente em várias partes do campo. Ninguém nunca soube dizer com precisão quem as fizera. Talvez fosse obra de um tratorista embriagado, talvez fosse obra dos tais duendes das pequenas vinganças. O certo é que as traves precisaram ser reposicionadas novamente, e o espaço para o jogo diminuiu tanto que as peladas se tornaram cada vez mais raras.

Como consequência do desânimo da garotada, aos poucos, o belo campo de futebol foi sendo ocupado por novas casas, até desaparecer por completo. Em pouco tempo, o que antes era grama, divertimento, risos e poeira; virou calçada, muro e silêncio. Mas para quem viveu aquela época dourada, uma lembrança que nunca será esquecida é a frase memorável da saudosa Dona Alcina: “Pode deixar, seu Candinho! ”

Nivaldo Londrina Martins do Nascimento (escritor e jornalista)

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