
O estudante do último ano de psicologia e porteiro Márcio Quintana, 48, transformou os intervalos de vigilância no Residencial Gran Village, em Adamantina, em tempo de criação literária. Valendo-se de anotações feitas há mais de uma década, ele estruturou e concluiu seu primeiro livro, “Luz do Vale”.
O reencontro de Quintana com a própria escrita ocorreu de forma imprevista em 2024. Ao visitar a antiga casa dos pais, deparou-se com folhas amareladas e rascunhos de um projeto iniciado em 2010. O material, até então esquecido, reacendeu uma motivação pessoal antiga: homenagear os pais e uma tia freira.
A rotina na portaria, embora exija atenção, ofereceu os momentos de silêncio necessários para que os pensamentos dispersos ganhassem forma. “O livro não foi escrito em grandes explosões de produtividade, mas sim na constância, no aproveitamento consciente dos pequenos espaços”, diz Quintana.
A obra narra os dilemas de personagens que vivem a Primeira Cruzada, mas a guerra é apenas o cenário. O foco, segundo o autor, está na dor, na distância e nas transformações moldadas pela fé e pelo sacrifício. A mensagem central é que o amor verdadeiro não significa posse, mas a busca por significado.
Para Quintana, o interesse pela escrita é fruto de uma juventude vivida na “geração da biblioteca”, quando a música e os livros exigiam interpretação e forjavam o caráter. Hoje, ele enxerga o hábito de ler não apenas como uma busca por conhecimento, mas como um resgate em meio a conteúdos que considera robotizados e comerciais.
“É muito mais uma conexão com o passado, uma saudade dos tempos em que a leitura tinha um peso diferente na minha vida. Hoje, ela entra mais como um tipo de “upgrade emocional”, sabe? Não necessariamente carregada das mesmas raízes ou valores de antes, mas ainda assim envolvente de alguma forma. É como se eu buscasse na leitura um certo resgate, mesmo que não seja com a mesma intensidade de antigamente”, comenta.
Embora o livro esteja finalizado, Quintana não tem pressa em publicá-lo formalmente. A obra foi compartilhada em formato digital com amigos e familiares, gerando reações que já justificam o esforço. Um dos leitores relatou imersão tão profunda na narrativa que passou a reler a história para a própria esposa, um pouco a cada noite.
Satisfeito com o impacto emocional nos primeiros leitores, Quintana vê seu trabalho como uma prova de que a literatura é acessível a quem se dispõe a tentar. Para os trabalhadores e jovens de Adamantina que hesitam diante da escrita, o porteiro deixa um conselho fundamentado em sua própria persistência. “Sempre vai existir uma folha em branco esperando por você. O que separa a ideia da realidade é a coragem de começar”, diz.












