A pressa que chegou sem pedir licença

Uma reflexão sobre a chamada sociedade do cansaço e a nossa pressa cotidiana

“A sociedade do século XXI não é mais disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. (Byunq-Chul Han)”

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Outro dia, na estrada pra Tupã, entre uma aula pra dar e outro compromisso já meio em cima da hora, eis que uma conversa com uma colega de trabalho, daquelas conversas que começam no automático e, quando a gente vê, já estão nos rincões da filosofia e áreas afins.

O assunto? Tempo. Ou melhor… a falta dele, que anda mais presente do que nunca.

Ela comentou, meio rindo de nervoso, sobre esse cansaço que não larga da gente. Um cansaço danado, que aparece até em dia “tranquilo”. E é aí que mora o problema: a gente cansa sem nem saber direito do quê. Não capinou lote, não carregou mudança, não correu de boi bravo… mas tá ali, só o pó.

Foi nesse embalo que apareceu o tal do Byung-Chul Han e sua Sociedade do Cansaço. Entre uma curva e outra da estrada, fomos lembrando dessa ideia meio indigesta: hoje em dia, a gente não precisa mais de ninguém mandando, a gente mesmo se aperta. Vira chefe de si próprio, cobrador, fiscal e funcionário tudo junto. E o pior: sem hora pra bater ponto!

A estrada ia indo… e a conversa também.

Lá pelas tantas, me peguei lembrando de um tempo em que a pressa ainda não tinha virado dona da situação. Tinha horário? Tinha. Mas não era essa correria desenfreada, não. O relógio marcava o tempo, não ficava marcando a gente que nem professor em dia de prova.

Ir pra cidade vizinha era quase um evento. Tinha conversa no caminho, tinha parada, tinha até aquele silêncio bom que não incomodava ninguém. Hoje, não… hoje o trajeto virou só um “meio de chegar”. Ninguém mais vai… Todo mundo só quer chegar logo!

A pressa chegou assim, meio de mansinho… quando a gente viu, já tava morando!

Entrou pelas agendas lotadas, pelos grupos de mensagem que não calam nunca, pelas metas que aparecem do nada. E foi ficando. Quando a gente percebeu, já não tinha mais espaço nem pra tomar um café direito sem olhar o relógio, ou pior, o celular!

E o silêncio… ah, o silêncio. Antes, era descanso. Hoje, parece que incomoda!

Se fica quieto demais, a gente já acha que tem alguma coisa errada. Corre pra ligar uma música, responder mensagem, inventar qualquer coisa. Como se ficar sem fazer nada fosse desperdício ou, Deus nos livre, preguiça!

Talvez seja isso que mais cansa. Não é nem o tanto de coisa que a gente faz… É o fato de não conseguir fazer uma coisa só, em paz, sem já estar pensando na próxima, na outra, na seguinte… E quando vê, já nem sabe mais de onde começou!

Quando vimos, as placas avisavam que Tupã tava logo ali. Mais uma aula, mais um horário, mais uma função. E, como sempre acontece, a conversa foi ficando pra trás, não porque acabou, mas porque a rotina não gosta muito dessas reflexões mais demoradas.

Mas alguma coisa ficou martelando…  Ficou a sensação de que, em algum ponto do caminho, a gente desaprendeu a ir devagar. A vida, que antes era estrada, virou lista. E lista daquelas que a gente nunca dá conta de riscar tudo.

E aí vem a parte meio incômoda…

A gente reclama da pressa, fala que tá cansado, que não aguenta mais essa correria, mas no fundo, continua alimentando ela. Aceita mais um compromisso, responde mais uma mensagem, inventa mais uma obrigação que nem precisava existir!

No fim das contas, a pressa não só chegou sem pedir licença.

A gente abriu o portão… Ofereceu café…E ainda pediu pra ela ficar. E agora fica difícil mandar embora!

Mas, vez ou outra, dá pra fazer um agrado pra si mesmo: diminuir o passo, olhar pela janela, deixar o mundo passar sem precisar correr atrás dele o tempo todo.

Porque, do jeito que vai… A gente não tá vivendo mais rápido. Tá só ficando cansado mais cedo!

Tiago Rafael dos Santos Alves

Professor da Rede Estadual de SP / FADAP/FAP – Tupã

Historiador – nº 0000486/SP

Gestor Ambiental: CREA-SP nº 5071624912

Mestre pelo PPGG-MP – FCT/UNESP

Doutorando pelo PGAD – FCE/UNESP

E-mail: [email protected]

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