Personagens da História de Adamantina: Julião Saturno, o “Poeta da Saudade”

Conteúdo assinado por Néio Souza Bom Junior

Toda cidade tem seus heróis discretos. Aqueles que não levantam estátuas, não dão nome a avenidas, mas deixam alguma coisa no ar — um gesto, uma história, uma música. Adamantina teve um desses: Julião Saturno.

Julião era, antes de tudo, um homem tomado pela saudade. E há quem diga que a saudade é o sentimento mais brasileiro que existe. No caso dele, era também a matéria-prima da sua arte.

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Amava Adamantina com um amor quase exagerado, desses que fazem o sujeito carregar a terra natal dentro do peito como quem carrega um retrato antigo no bolso. E quando a distância apertava — principalmente nos anos em que viveu em São Paulo — esse amor virava…músicas.

E que músicas.

Julião tinha o dom raro dos grandes letristas: transformar sentimento em verso simples e verdadeiro. Nada de palavras difíceis. Nada de enfeites desnecessários. Era coisa direta, nascida do coração caipira, sincero e grato por uma terra que ele acreditava, com fé absoluta, ser abençoada por Deus.

Conheci Julião de perto.

Morávamos em São Paulo na mesma época, lá pelos anos 70. Ele vivia em um apartamento na Senador Queiroz, bem em frente ao começo da famosa 25 de Março. Fui visitá-lo certa tarde.

Lembro-me da cena como se fosse hoje.

Ele abriu seus cadernos, mostrou suas músicas, seus discos, as gravações feitas por duplas sertanejas que levaram suas letras para o Brasil inteiro. Ficamos horas conversando.

Mas bastava mencionar Adamantina.

Pronto.

Os olhos de Julião marejavam na mesma hora. A voz mudava de tom. A distância pesava. Era a saudade dando seu espetáculo silencioso.

Na vida dele havia duas paixões absolutas: música e Adamantina.

Antes de eu ir embora, ele me entregou um presente. Um LP da dupla Belmonte & Amaraí. No disco havia uma canção dele chamada Presença de Deus.

Não era apenas uma música.

Era uma declaração de amor à sua cidade.

Algum tempo depois soube de algo que o deixou profundamente feliz. Meu pai, Nelson de Souza Bom, que era vereador, conseguiu na Câmara a aprovação do título de Cidadão Adamantinense para Julião.

Pode parecer apenas um diploma.

Mas para ele era muito mais.

Era o abraço oficial da cidade que ele tanto cantou.

Era Adamantina dizendo: “Nós também gostamos de você, Julião.”

E ninguém merecia mais esse reconhecimento.

Julião Saturno foi um homem simples, humilde e talentoso. Um poeta da música sertaneja que transformou lembranças, saudades e gratidão em canções. Alguns escrevem livros.

Outros fazem discursos.

Julião fez algo mais bonito: cantou Adamantina.

E quem canta a sua terra nunca vai embora de verdade.

Que Deus o tenha sempre ao seu lado, meu querido amigo Julião Saturno.

(No SoundCloud ou na página dele no Muvia – Museu Virtual de Adamantina, existem cerca de 20 áudios com músicas de autoria de Julião Saturno, gravadas por várias duplas sertanejas.)

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