Quando as brincadeiras eram inspiradas na “telona”…

Confira o conteúdo assinado pelo servidor público e escritor Nivaldo Martins do Nascimento (Londrina)

(Memórias de um cronista II)     

Existiu um tempo em que não faltava diversão em Andradina/SP. A cidade contava com um time de futebol profissional, ótimos salões de baile, desfiles de carnaval (com a participação da Escola de Samba Unidos da Baixada Preta), pedalinhos na Lagoinha Country Clube e muito mais. Em meio a toda essa diversidade cultural e recreativa, se destacavam os cines Capri e Santo Antônio; ainda vivos na memória de muita gente. 

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Quem viveu a década de 1970 se lembra das luzes se apagando, das cortinas se abrindo e do famoso Canal 100. Nesse cinejornal, eram exibidas as principais notícias da semana e os gols dos grandes clássicos do futebol brasileiro, narrados por Cid Moreira ao som da música Na cadência do samba (Que bonito é..). Só depois vinha o espetáculo principal, com filmes que inspiravam as brincadeiras da molecada da época.

Dentre os quatro filhos de seu Antônio e dona Alcina, Branco e Nenezão eram os que mais frequentavam os cinemas. Enquanto o primeiro tinha gosto eclético, o segundo preferia filmes de faroeste que retratavam embates entre cowboys e indígenas norte-americanos, e sempre torcia pelos últimos. A empatia pelos “pele-vermelhas” era tanta que ele acabaria se tornando uma espécie de “indígena oficial” da Rua Itararé.

Como fazia cocares, arcos e flechas com a precisão de um guerreiro apache, Nenezão era muito respeitado pelos amigos. Suas flechas, de pontas metálicas extraídas de varetas de velhos guarda-chuvas, atravessavam troncos de bananeiras com facilidade (para azar da vizinhança). No antigo campo de futebol, ele costumava exibir toda a eficiência dos “brinquedos” que fabricava, perfurando latinhas de massa de tomate. E assim foi até o dia em que resolveu testar a altura que os artefatos poderiam alcançar.

Nenezão mirou uma nuvem, retesou a corda do arco ao máximo e disparou. A flecha subiu rumo ao céu e desceu rapidamente, acertando as costas de um garoto, filho de uma família de cearenses que residia há pouco tempo no bairro. O acidente rendeu explicações de Nenezão ao comissário de menores, discussão acirrada do seu pai com os pais da vítima e o fim precoce da sua promissora carreira de arqueiro.

Entretanto, outros garotos, que também eram inspirados pelos filmes de cowboys, continuariam em atividade. Estes, todos os finais de semana, pegavam suas espingardinhas de pressão e iam praticar tiro em caixinhas de fósforo e tampinhas de garrafa no inesquecível campo de futebol. A preocupação deles com a segurança era tanta que nunca atiravam na direção das ruas em que transitavam pedestres e veículos.

Mas o destino, que adora repetir tragédias e piadas de gosto duvidoso, certa tarde resolveu dar aos atiradores o mesmo final de carreira dado ao arqueiro cara-pálida. Tudo corria bem no treinamento de tiro até chegar Nicão, figura muito conhecida na Baixada Preta, querendo mostrar a sua habilidade.  Um dos cowboys hesitou um pouco, mas acabou entregando sua espingardinha ao amigo. Nicão, todo cheio de pose, mirou uma latinha e puxou o gatilho. Porém, o chumbinho, rebelde, ricocheteou no alvo e acabou acertando as costas de um rapaz que passava pela Rua Silva Jardim.

Apesar do ferimento no rapaz ter sido superficial, não demorou muito para que a polícia chegasse ao local do acidente. Como os atiradores tinham se evaporado com as espingardinhas, o prejuízo acabou ficando para dois garotos da Vila Pereira Jordão que tiveram seus estilingues e picuás de bolinhas de saibro apreendidos. Esse episódio colocaria um fim definitivo nas brincadeiras “diferenciadas” de uma geração de garotos que se inspiravam nos filmes de cowboys para se divertir no famoso campo de futebol.   

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