Conto: O pingo d’água

Confira o conteúdo assinado pelo engenheiro José Michelini Neto

Deslizava suavemente pelo fino e baixo galho da árvore após breve chuva de verão. Agora encalhado temporariamente na calosidade do galho estava lá aquele fascinante pingo d’água, não por sua forma ou algo identificável aos olhos humanos, mas por algo inexplicável, transcendente, ou pelos olhos da alma. Deparei-me com ele assim, atingido por esse fascínio. Era sim um pingo d’água, mas expressava um brilho de felicidade, orgulho. E convidava-me a ouvi-lo. Encantado, absorvi profunda e indelevelmente sua mensagem.

Isso deve ter sido a milhares de anos!

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Como um anjo do Senhor transfigurado em Pingo d’Água dirigindo-se a um profeta, transmitiu-me os mistérios de sua missão neste mundo em que nada há sem função. Era um pingo d’água e era toda a água do planeta. Falou de como veio a este mundo por sofisticadas, ao nosso entendimento, combinação de elementos que evoluíram para esse propósito. Tudo planejado por um Ser Superior para gerar a Vida das espécies que surgiriam em posterior estágio, em especial a espécie Humana, contemplada com todo esse aparato para seu desenvolvimento e evolução. Expressava-se, não em prosopopeia, não por sons audíveis, mas era como se assim fosse. Orgulhava-se e era grato por tamanha importância se lhe atribuída para a vida no planeta. Era pura, límpida, translúcida, cristalina. Poderia congelar-se como uma reserva hídrica. Poderia condensar-se e o companheiro vento a levaria para precipitar-se em outro sitio. Essencial a toda espécie de vida do planeta mostrava orgulho de sua missão. Agora era uma gota d’água precipitada dos céus aderido a um galho. Parte de si evaporaria juntando e se transfigurando em nuvens; parte infiltraria ao solo, percolaria subterraneamente até submergir em nascente juntando-se a um pequeno curso; desembocaria em águas maiores. Poderia, se na superfície, volatizar e voltar a uma nuvem; ou chegar ao mar. Ou ainda ser ingerida por algum ser, servir a qualquer função de qualquer organismo vivo. Sair pelos poros, pelas fezes, pela urina. Compor o sangue. Quando liberto desse organismo voltaria à condição dependente das circunstâncias: percolar, volatizar, ser ingerida. Quanta aventura para um pingo d’água. Ser parte de formações subterrâneas. Ser petróleo, larvas de vulcão. Voltar a ser nuvem, chuva, rio, mar, fezes, urina, sangue, geleira. Viajar com as nuvens, precipitar-se nos mais diferentes e longínquos lugares deste planeta. Nenhum outro corpo pode conhecer tanto, passar por tantas experiências. O Pingo D’Água sabe das coisas. Ouvi-o com encantamento por horas. Quanto tempo pode levar um pingo d’água para completar um ciclo? Se compor um geleira, quanto pode ficar nessa função? Para nossa medida uma eternidade! Mas para ele o tempo não existe, não conta.

Ainda hoje ele me reapareceu, o mesmo Pingo D’água, apartado pela onda de um fedorento rio. Suas falas de então imediatamente se me avivaram. Não tive dúvidas, era ele mesmo, o mesmo Pingo D’água. Só não apresentava o mesmo brilho de felicidade nem a mesma pureza. Perguntou se me lembrava da primeira aparição e eu respondi que tinha tudo bem vivo em meu coração e memória. Só não o via puro como da outra vez, mas sim misturado a organismos infectos. Isso mesmo respondeu ele. E discorreu sobre os crimes das ações antrópicas para com a Mãe Terra. As podridões de suas águas superficiais; o arranque brutal de seus cabelos expondo-a às intempéries; as feridas fendidas em sua pele penetrando suas entranhas na busca por riquezas efêmeras; a extinção de outras espécies de seus rebentos; a Terra já não amamenta seus filhos, apenas fornece o peito seco polvilhado de peçonhas; o envenenamento dos essenciais elementos água e ar; essas mazelas são proporcionadas pela acumulação de riquezas de uns oprimindo a maioria à fome e indignidade; a natureza mostra sua indignação com tormentosos flagelos desdenhados pelos homens ditos líderes. Ouvi-a durante horas, com o coração adernado. E culminou sua fala com uma frase de entonação profética e certamente apocalíptica: “Quando o último dos seres humanos expirar, por doença, intoxicação, fome ou sede, a Terra se regenerará em sua forma exuberante, majestosa, mas a espécie humana terá perdido para sempre seu Paraiso, por desvario e estultícia de seus próprios seres”.

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