Personagens Folclóricos da História de Adamantina Zé do Pito… “A Lenda”

Conteúdo assinado por Néio Souza Bom Junior

Toda cidade tem seus personagens folclóricos — pessoas que, por algum motivo, característica ou comportamento, acabam se destacando entre milhares de habitantes comuns. São figuras que permanecem vivas na memória coletiva e ressurgem sempre que alguém conta a história do lugar.

Nos meus tempos de infância e juventude em Adamantina, lembro-me de vários deles. E se ainda estamos aqui, décadas depois, recordando essas pessoas, é porque foram realmente marcantes. Gosto de pensar que esses personagens especiais foram, de certa forma, anjos enviados por Deus para alegrar nossas vidas e permanecer em nossas lembranças.

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Quem é da minha geração certamente se recorda do “Tominaga”, o japonês que andava de bicicleta pela cidade, com um cesto na garupa, vendendo pastéis — e cuja risada estridente podia ser ouvida a quarteirões de distância.

Ou do “Expressinho”, vendedor de vassouras mais rápido da região. Bastava a dona de casa sair ao portão para comprar, e ele já estava no fim da rua.

Havia também Ernesto Vieira, o “Tocha”, frequentador assíduo do pátio do Ateneu todas as noites. Contava histórias enquanto buscava, com jeitinho, algum fumante disposto a lhe ceder um cigarro. Diz a lenda que fumou durante décadas sem jamais comprar um maço. O que poucos sabiam é que Tocha era um grande artista: era ele quem pintava os cartazes a serem colocados nas placas de propaganda dos filmes do Cine Santo Antônio.

Outro personagem querido era o Estremelique, um verdadeiro mestre na arte do origami. Criava peças incríveis em poucos segundos, encantando especialmente as crianças da cidade.A habilidade era tão impressionante que poderíamos até imaginar que o filme “Edward Mãos de Tesoura”, estrelado por Johnny Depp, tivesse alguma inspiração na destreza manual do Estremelique.

E ainda havia outros nomes que marcaram época, como Valdomiro, Maria do Pito e Lalanja Pela, além das lendas urbanas que povoavam o imaginário dos adamantinenses — como a “Loira do Banheiro”, terror das estudantes, e a “Loira do Asfalto”, que assustava motoristas nas proximidades da rodovia

Mas, entre todos esses personagens, houve um que se destacou de forma única e que até hoje é lembrado por milhares de pessoas:

Zé do Pito

Se você perguntar em Adamantina quem foi José Faustino, provavelmente poucos saberão responder. Mas, ao mencionar “Zé do Pito”, dificilmente alguém deixará de reconhecer — seja por tê-lo conhecido pessoalmente ou por já ter ouvido falar de sua fama.

Mas afinal, quem foi Zé do Pito?

Foi um personagem que viveu na cidade nas décadas de 40, 50 e 60, vindo de Bilac, na região de Birigui. Filho de uma lavadeira que morava na antiga Vila Nhu Porã, chegou a fazer alguns “bicos”, como capinar terrenos junto com seu irmão Antônio.

Com o tempo, tornou-se um andarilho urbano, assumindo as características que o transformaram em figura folclórica.

Era conhecido pelo chapéu, o saco nas costas — cujo conteúdo ninguém jamais soube —, a barba sempre por fazer, o semblante fechado e o inseparável cachimbo, feito a partir de uma cruzeta de cardan e presenteado pelo pai de Hélio Delgado.

Seu ponto de referência era a antiga rodoviária, mas perambulava por toda a cidade, sempre pedindo um café nas casas. Quando era atendido, saía cantarolando:

“Muié vai fazê pasteisi /
Muié vai fazê pasteisi /
Qui é pra nóis cumê pasteisi…”

Apesar de ser uma pessoa inofensiva, sua aparência amedrontadora lhe rendeu fama. E as mães da época ajudaram a consolidar esse mito, usando seu nome como forma de disciplinar os filhos:

“Se não for tomar banho, o Zé do Pito vem te buscar.”
Resultado: criança correndo para o banheiro.

“Se não fizer a lição, o Zé do Pito vem aqui.”
E a tarefa era feita em tempo recorde.

As crianças tremiam só de ouvir seu nome.

Seria exagero dizer que, mesmo sem saber, Zé do Pito contribuiu para educar uma geração inteira? Fica a reflexão para os especialistas educadores— e para os admiradores dessas histórias fantásticas

Adamantina sempre foi rica em lendas. Mas poucas foram tão marcantes quanto a de Zé do Pito.

A prova disso é simples: mais de 60 anos depois, ainda estamos falando dele. E tudo indica que, daqui a mais 60 anos, seu nome continuará sendo lembrado por algum adamantinense

Zé do Pito saiu da vida dos adamantinenses da mesma forma que entrou: silenciosamente, sem alarde.

Ninguém sabe qual foi seu destino final.

Mas uma coisa é certa — ele permanecerá para sempre na memória da cidade.

Porque lendas…nunca morrem.

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