Se um dia eu pudesse voltar ao passado… eu queria acordar num sábado de 1994, com o cheiro do café coado passando pela fresta da porta do quarto. Queria ouvir minha mãe cantarolando na cozinha enquanto o rádio AM tocava Roberto Carlos — sempre Roberto Carlos. Queria sentir aquela preguiça gostosa de quem não tem compromisso com nada além de existir.
Eu queria voltar.
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Não por covardia diante do presente. Não por incapacidade de seguir em frente. Mas porque havia, naquele tempo, uma textura na vida que hoje me escapa entre os dedos como água. Uma densidade nas horas. Uma lentidão que não era tédio — era presença.
Nos anos noventa, o tempo tinha outro peso. Ou talvez fôssemos nós que tínhamos outro peso dentro do tempo. Não sei. Só sei que as tardes duravam uma eternidade benevolente, e a gente não reclamava. A gente preenchia.
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Eu queria voltar para a rua de terra batida onde a molecada se reunia sem combinar. Bastava sair de casa. Bastava existir do lado de fora. Alguém aparecia com uma bola murcha, outro trazia o taco de madeira improvisado, e pronto: estava feita a tarde. Não havia convite por mensagem, não havia grupo de WhatsApp, não havia confirmação de presença. Havia apenas a certeza primitiva de que, se você fosse, encontraria alguém. E encontrava. Sempre encontrava.
Queimada, esconde-esconde, pique-bandeira, guerra de mamona. Joelhos ralados, cotovelos esfolados, e aquela sede honesta de quem gastou o corpo inteiro. A mãe gritava da janela quando escurecia — e aquele grito era o único algoritmo que conhecíamos. Ele determinava o fim do expediente. A gente obedecia, mas voltava no dia seguinte. E no outro. E no outro.
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Eu queria voltar para a televisão de tubo, aquela que demorava para esquentar a imagem. Três canais, talvez quatro. E ainda assim, parecia que havia tudo. O Jornal Nacional com o Cid Moreira, a voz grave que embalava o jantar da família inteira reunida na sala — porque era na sala que se jantava, juntos, sem telas individuais roubando os olhares.
Eu queria voltar para os Trapalhões no domingo, para o Fantástico que realmente parecia fantástico, para a Sessão da Tarde que transformava qualquer segunda-feira em evento. A gente esperava o filme. Esperava mesmo. Não havia streaming, não havia catálogo infinito. Havia a escassez que tornava tudo precioso.
E a novela das oito? A novela das oito parava o país. Vizinhos comentavam no portão, no dia seguinte, as tramas e reviravoltas. Era uma experiência coletiva, um ritual compartilhado. Hoje cada um assiste a sua própria bolha, em seu próprio tempo, em sua própria solidão.
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Eu queria voltar para a locadora de vídeo na sexta-feira à noite. Aquele templo sagrado de prateleiras azuis e amarelas, com as capas dos filmes prometendo mundos. O cheiro de plástico das caixas, o balcão com as balas de caramelo, a negociação silenciosa entre irmãos sobre qual fita levar. Duas, no máximo três. Tinha que escolher. E a escolha, meu Deus, como a escolha dava peso àquele momento.
Rebobinar antes de devolver. SEJA GENTIL, REBOBINE. Um lembrete de civilidade que hoje soa quase cômico. Mas havia gentileza embutida naquele gesto. Havia consideração pelo próximo. Havia o entendimento de que o mundo não era só nosso.
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Eu queria voltar para as cartas escritas à mão, com a letra torta de quem ainda estava aprendendo. Para o telefone fixo que tocava e a gente atendia sem saber quem era — e havia magia nisso, havia surpresa, havia o coração acelerado quando a voz do outro lado era a voz que a gente esperava.
Eu queria voltar para as fotos que a gente só via depois, quando o filme era revelado. Trinta e seis poses para um mês inteiro. Cada clique era uma decisão. E quando as fotos voltavam do laboratório, dentro daquele envelope, era Natal antecipado. Algumas saíam tremidas, outras cortavam a cabeça de alguém, mas todas — todas — eram verdadeiras. Não havia filtro, não havia edição, não havia segunda chance.
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Eu queria voltar para a simplicidade de não estar disponível. De sair de casa e pronto — ninguém sabia onde você estava, e tudo bem. O mundo continuava girando. Os recados ficavam no caderninho ao lado do telefone. A ansiedade de responder em cinco segundos não existia porque a expectativa de ser respondido em cinco segundos também não existia.
Havia silêncio. Havia tédio. E no tédio, a gente inventava. No silêncio, a gente pensava. Sem estímulo constante, o cérebro respirava. Sem notificação, a alma descansava.
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Clarice diria que a saudade é a presença da ausência. E talvez seja isso. Talvez os anos noventa só existam agora com essa beleza porque não existem mais. Porque a distância dourou as bordas, suavizou as arestas, apagou os defeitos. Eu sei que havia problemas. Eu sei que o mundo não era perfeito. Mas havia, naquele imperfeito, uma autenticidade que hoje me parece artigo de luxo.
Alexandre Garcia acrescentaria, com seu pragmatismo lúcido, que não se volta ao passado — vive-se o presente com as lições que ele deixou. E ele teria razão. Sempre tem.
Mas às vezes, só às vezes, a razão pode esperar.
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Se um dia eu pudesse voltar ao passado, eu não mudaria nada. Eu só queria sentar-se na calçada, com os pés descalços no cimento frio, olhando o céu escurecer devagar enquanto os postes acendiam um por um. Eu só queria ouvir as cigarras. Eu só queria sentir que o amanhã podia esperar porque o agora era suficiente.
Eu só queria, por um instante, ser de novo quem eu era antes de saber tudo o que sei.
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Porque o passado não volta. Mas, quando a saudade aperta, ele nos visita — e, por um segundo, somos novamente inteiros.















