Crianças de Roça

Confira o conteúdo assinado pelo engenheiro José Michelini Neto

Fomos crianças de roça. Brincamos e corremos pelos quintais e campo. Bebemos leite no mangueiro no instante mesmo da ordenha munidos de caneca, colher e açúcar. 

Cedo aprendemos, naturalmente, a distinguir os sons da natureza: os cantos, os mugires, os cacarejos, os latidos, os relinchos, os grunhidos. Cedo aprendemos a galopar sem sela e estribos; a tanger as vacas para a ordenha; a identificar plantas e árvores.   

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Andávamos descalços inconscientes de eventuais perigos. No inverno, nas manhãs de pastagens embranquecidas pelas geadas, atolávamos os pés para aquecê-los nos montes ejetados pelas vacas, ainda moles e quentinhos. Difícil era enfiar os pés no primeiro calçado da vida: os pés eram largos e os dedos arreganhados. Em compensação podia-se pisar em prego espetado sem consequências pois as solas dos pés eram protegidas por uma crosta impenetrável. Mas não éramos imunes aos “bichos de pé”, cujas “cirurgias” eram feitas pela Dra. Mãe instrumentada por agulha, à luz de lamparina ou lampião após o jantar, depois dos pés lavados. A energia era a combustão de querosene, cujo cheiro permanece ainda em nossas lembranças olfativas. Também não éramos isentos aos piolhos, combatidos com corte de cabelo zero e banho de querosene. Era também a querosene o tratamento das bicheiras dos animais. 

Aprendemos a aplicar terra nos cortes acidentais para estancar o sangue e por acreditarmos que a terra era medicinal e sagrada. 

Éramos obedientes, mas também “arteiros” e livres. Os pais, em geral, não eram cerceadores nesses quesitos. Por lembrança e exemplo, cito o feito de um dos meus irmãos, utilizando-se da fita métrica, prendeu minha avó Santa (que era uma onça de brava) através do passante do vestido dela e do braço da cadeira em que ela se sentava. E ainda a chamou para ir ver alguma coisa com ele. Esses modelos de “artes” não eram raros. Acho que todos os leitores que foram crianças de roças vão se lembrar de alguma.  

Andávamos léguas para receber a alfabetização. No verão, o sagrado banho da volta no Ribeirão. Dois irmãos, meus primos, de idades muito próximas, tinham um único bornal (“emborná”) para o material escolar. Era combinado cada dia um carrega-lo. Não era raro chegarem na escola sem o bornal. Cada um culpava o outro e assim os anos foram passando. 

Outro primo ansiava pelo sábado, quando a família ia às compras na cidade. Ele se negava a ir e o motivo erra tão somente coletar um ovo no galinheiro e comê-lo frito sem ninguém saber. Os ovos eram contados para o consumo da família e ele era “lumbrigado” por ovo frito.

Subíamos em árvores e repassávamos seus galhos. Comíamos frutas colhidas diretamente das frutíferas. Galgávamos os troncos dos mamoeiros para a “panha” de mamão maduro na ponta da árvore e o comíamos ali mesmo, no meio do cafezal “cavocando” o mamão com as mãos que depois eram “lavadas” com terra ou limpas na própria roupa. 

As vidas das mulheres eram particularmente sofridas. Por isso, nem todas as avós eram as dos bolinhos para os netos. Meu irmão mais velho, certa vez, cuspiu um amendoim que se fazia engastado em sua garganta há dias numa carreira que levou de minha avó munida de uma varinha de marmelo. 

Levávamos as marmitas de almoço ao pai e aos irmãos mais velhos na roça, e haviam aqueles que divagavam pelo caminho entretidos com um pássaro ou outro motivo qualquer e chegavam com a comida fria. 

Fomos crianças de roças – daquelas roças ricas de histórias.

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