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Adamantina
domingo, 11 janeiro, 2026

Adamantina à noite

Confira o conteúdo assinado pelo advogado Arlindo Alves

Gil Pender, de “Meia-noite em Paris”, tem uma fixação pela Cidade Luz em dias de chuva. Ele conhece Gabrielle numa barraca de antiguidades do famoso Mercado de Pulgas de Saint-Quen, ao adquirir discos de Cole Porter. Na cena final, eles se encontram na Ponte das Artes no rio Sena e, mal trocam algumas palavras, começa a chover. Para surpresa de Gil, Gabrielle diz que não se importa em se molhar. “Aliás, Paris fica mais bonita na chuva”, confessa ela.

Cada um gosta da sua cidade de um jeito. Gosto mais de Adamantina à noite, embora não necessariamente com chuva. Prefiro céu limpo, cheio de estrelas e, se possível, com Lua Cheia clareando tudo, quase dispensando a iluminação artificial.

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Não me considero notívago e tampouco boêmio. Também não aprecio ficar até tarde da noite na rua. Por nada sacrifico as preciosas horas do sono. Por isso, jamais estendo minhas andanças para além da meia-noite. O que é uma pena, pois é nessa hora que tudo acontece na Paris mágica: a fantasia da viagem no tempo.

Aprecio caminhar à noite pelo centro da cidade, observando suas luzes, seu relativo silêncio, no reduzido movimento de carros e pedestres. Sinto calma e paz profunda. Durante o dia tudo é muito agitado, uma correria que não dá tempo de apreciarmos o muito de belo que há em nossa urbe.

Olho as vitrines, a arquitetura dos velhos edifícios que contam histórias remotas. Passeio por ruas e avenidas, rememorando as tantas vezes que, desde a infância, percorri essas artérias, nos trajetos de casa para a escola no alto da Santa Casa ou de casa para o trabalho de office-boy, balconista de loja, entregador de jornais e tipógrafo do jornal “A Hora”.

Nesse roteiro de luzes e sombras, jamais dispenso divagar, bem devagar, pela praça central, com seus bancos de concreto, suas árvores frondosas, a fonte luminosa, a biblioteca e o anfiteatro.

Sofreu muitas inovações desde que a conheci nos anos sessenta, quando ainda se chamava Marrey Júnior. Gosto de me sentar ali e cismar à noite, ouvindo o burburinho dos pássaros se ajeitando nos galhos; sentir o vento assoprar as copas das árvores e agitar as flores ao redor dos troncos. Apesar do tempo e dos modismos, a velha praça ainda ostenta parte do charme de outrora.

Claro que não ando sozinho. Passos familiares seguem ao meu lado. Não faz sentido o gosto solitário. É fundamental, como Gil Pender, ter alguém consigo que também goste de Paris na chuva.

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