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segunda-feira, 26 janeiro, 2026

Renovação política e o desafio da representatividade jovem no Brasil

A cada ciclo eleitoral, o Brasil reafirma um padrão que se repete com impressionante regularidade: a preferência majoritária por políticos antigos, muitos deles oriundos de famílias tradicionais que se revezam no poder há décadas. Trata-se de um fenômeno cultural profundamente enraizado, sustentado por fatores como o reconhecimento do sobrenome, a força de estruturas partidárias consolidadas e a crença de que a experiência, por si só, é garantia de boa gestão. No entanto, os resultados concretos desse modelo precisam ser analisados com honestidade e espírito crítico.

Grande parte dos problemas que hoje afligem o país como desigualdade social persistente, deficiência em serviços públicos essenciais, infraestrutura precária, baixa eficiência administrativa e descrédito nas instituições, não surgiu de forma repentina. São questões estruturais, construídas ao longo do tempo, sob a gestão reiterada de grupos políticos que já tiveram inúmeras oportunidades de enfrentá-las. Quando os mesmos atores permanecem no comando dos recursos públicos por décadas, é legítimo questionar por que problemas antigos continuam sem solução efetiva.

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A permanência dessas lideranças no poder cria um ambiente de acomodação política. Muitas vezes, o foco deixa de ser a transformação estrutural e passa a ser a manutenção do próprio espaço político. A lógica do “sempre foi assim” acaba inibindo mudanças mais profundas, reformas corajosas e a adoção de práticas inovadoras de gestão pública. Nesse contexto, a baixa representatividade de jovens nos cargos eletivos não é apenas uma questão geracional, mas um entrave ao próprio desenvolvimento do país.

Inserir mais jovens na política não significa, automaticamente, romantizar a juventude ou assumir que a idade, por si só, é sinônimo de virtude. A análise precisa ser realista. Jovens políticos também enfrentarão limitações, pressões partidárias e desafios institucionais. Contudo, há vantagens concretas em ampliar esse espaço. Em geral, jovens tendem a ter maior familiaridade com novas tecnologias, com formas mais transparentes de comunicação, com modelos modernos de gestão e com demandas sociais emergentes, como sustentabilidade, inovação, mobilidade urbana e novas relações de trabalho.

Outro ponto essencial é o preparo acadêmico e técnico. Diferentemente de gerações passadas, muitos jovens que hoje se colocam à disposição da vida pública possuem formação sólida, acesso à informação qualificada e contato com experiências nacionais e internacionais bem-sucedidas. O estudo não substitui a prática política, mas fornece ferramentas fundamentais para decisões mais racionais, baseadas em dados, planejamento e avaliação de resultados, algo ainda raro na administração pública brasileira.

Além disso, a vontade e a determinação, quando aliadas a conhecimento e ética, podem romper ciclos viciados de gestão. Jovens, em geral, ainda não estão presos a acordos históricos, compromissos informais e redes de interesses que frequentemente limitam a ação de políticos tradicionais. Isso não garante independência absoluta, mas amplia a possibilidade de escolhas mais alinhadas ao interesse coletivo.

Cabe, portanto, à população refletir sobre suas próprias escolhas políticas. Votar sempre nos mesmos nomes, esperando resultados diferentes, é uma contradição que precisa ser enfrentada. A renovação não deve ser cega nem baseada apenas na idade, mas consciente, criteriosa e responsável. Avaliar propostas, formação, histórico, valores e capacidade técnica deve ser regra, independentemente do sobrenome ou da tradição familiar.

O fortalecimento da democracia brasileira passa, necessariamente, por maior diversidade de ideias, perfis e gerações no poder. Dar espaço a políticos jovens não é negar a experiência, mas reconhecer que o futuro do país exige novas perspectivas. Persistir exclusivamente no passado tem nos trazido até aqui; talvez seja hora de permitir que novas lideranças ajudem a construir caminhos diferentes.

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