Em julho de 1977 eu estava terminando meu intercâmbio nos Estados Unidos da América. Morava em Morgan, no estado de Minnesota, há uns 200 km de Mineápolis, Grande e bela cidade.
Na última semana, antes de embarcarmos de volta ao Brasil, recebi na fazenda onde morávamos, colegas de intercâmbio que iriam retornar comigo ao Brasil. Duas delas tinham amigos e parentes que moravam nos nossos grandes centros e que sempre mandavam notícias frescas da terrinha. Naquele dia, o que chegava era sobre a perseguição aos estudantes universitários que protestavam contra a ditadura, as torturas em andamento e o sumiço de alguns. Naquela noite, tivemos medo de voltar ao Brasil.
Mas logo vimos, claro, que para nós não havia perigo. Éramos filhos e filhas de famílias de bem, havíamos estudado em escolas católicas e além do mais, nossos pais haviam depositado 600 mil cruzeiros (ou algo assim) para que pudéssemos sair do país (dinheiro que seria ressarcido um ano depois – era uma espécie de depósito compulsório).
De qualquer forma, aquele ano de 1977 ficou marcado na minha memória como o ano mais incrível da minha vida. Ano que me inscrevi no vestibular da PUC-SP (e passei) para fazer jornalismo. Minha inscrição aconteceu, inclusive, poucos dias depois da invasão da PUC, noite em que uma pessoa que conheci, anos depois e que se tornaria meu marido, foi preso pela turma do Coronel Erasmo Dias. “Só porque era presidente do Centro Acadêmico”.
O filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, foca sua história justamente no ano de 1977. Carnaval de 77. Interessante isso. Icônico para mim e icônico para ele. A diferença é que eu, naquela época, não tinha muita ideia do que acontecia nas entrelinhas daquela nossa história.
Kleber resolve colocar isso num roteiro em que mescla a magia do cinema, mitos e crendices (que podemos até chamar de fake news), folclore pernambucano (Kleber é de Recife) e permissividades do Carnaval. Claro que não sem alguns exageros ou licença poética, sempre necessário numa obra cinematográfica.
Kleber retrata o Brasil que muitos de nós não víamos na época (e como ele deixa claro, no final, não fazemos conta de lembrar): dos matadores de aluguel, da vingança, do preconceito, dos homens da lei que usavam seu cargo para agir de forma ilegal, da corrupção institucionalizada (desde o policial, que pede uma “caixinha” para o motorista, ao executivo de estatal que retira a verba pública para uma importante pesquisa universitária).*
No fundo, um Brasil que mudou muito pouco.
Até porque, daqueles anos 70, assim como o filho de Rodrigo (ou Marcelo) não existe muita memória. Lembrar prá quê? Então é melhor deixar a história se repetir, se repetir, se repetir… Impedindo avanços sociais, econômicos, políticos e culturais.
Sim, porque Kleber faz um filme sobre a falta de memória e um filme que coloca o próprio cinema (que é memória) no centro das atenções. É num cinema que boa parte dos diálogos acontecem. É num dos seus escritórios que ele faz seu depoimento a uma ONG (responsável pelo pouco da memória que restou), e é pela janela da sala de projeção que vemos uma das mais belas paisagens urbanas da Recife dos anos 70. É lá que vemos, entre cartazes dos filmes Tubarão, King Kong e outros sucessos da época, um cartaz de “Agente Secreto”, película de 1936, dirigida por Alfred Hitchcock, de onde Mendonça tira o nome de seu filme (que não tem nenhum agente secreto, diga-se de passagem).
O fato é que o nosso Agente Secreto, contém diversas camadas, diversas pontas de linha que podem ser puxadas e em cada uma delas, encontraremos motivos para comentar, discutir e viajar.
É um filme sobre Recife, sobre o CINEMA de Recife (com a melancólica – mas ainda salvadora constatação ao que foram reduzidos os belos prédios que abrigavam suas salas), sobre nossa triste história dos tempos de ditadura e, infelizmente, sobre o esquecimento.
Premiações e indicações: Estreou no Festival de Cannes em maio de 2025 levando o prêmio de melhor interpretação masculina e melhor direção. No Globo de Ouro levou a estatueta de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Ator para Wagner Moura. Além de inúmeros outros prêmios o Filme também já recebeu várias indicações ao Oscar 2026: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Direção de elenco (nova categoria). Wagner Moura também é indicado a melhor Ator por sua atuação no longa.
O Agente Secreto está em cartaz em Adamantina no Cine HOS. Domingos às 17 hs.
*A principal notícia dessa semana foi justamente a consequência do corte de verba para pesquisas realizadas por uma cientista brasileira, fazendo com que o País perdesse uma importante patente. Graças a essa pesquisa, pessoas com paralisia puderam voltar a andar ou se locomover.
Marcia Molina Fonseca é jornalista, formada pela PUC_SP, com pós-graduação em História da Arte pela FAAP -SP. Adamantinense de nascimento, se considera uma apaixonada pela sétima arte, acompanhando lançamentos e mostras de cinemas paralelas. Junto com o marido, Eduardo Fonseca, frequenta a Mostra Internacional de cinema de São Paulo desde seu surgimento, no final dos anos 1970.






