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Adamantina
sexta-feira, 13 março, 2026

Um hábito que perdemos: as luzes do nosso horizonte

Confira o conteúdo assinado pelo universitário Vitor Rafael Borges Filgueira

Uma das atividades mais básicas do ser humano é a observação. Digo isso de forma geral, mas percebo que perdemos o hábito de observar as pequenas coisas do nosso cotidiano. Um exemplo disso é quando caminhamos ou andamos durante a noite em nossos municípios. Se estivermos próximos a áreas de pasto, conseguimos ver outros municípios, vizinhos ou até mais distantes.

Durante minhas observações astronômicas no último final de semana, lembrei-me de um fato que havia esquecido, justamente por não ter tido tempo de praticar esse hobby. Se você se dirigir a locais elevados, especialmente aqueles próximos a áreas de campo ou pastagem, é possível observar cidades distantes. Não me refiro a Lucélia ou Flórida Paulista, mas sim a horizontes que se perdem de vista.

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De um loteamento logo nos confins da cidade, por exemplo, consigo ver Presidente Prudente (PP), e muitos outros municípios vizinhos. Embora a distância por estrada seja considerável, cerca de 90 km, em linha reta a cidade está bem alinhada com Adamantina, e o centro de PP fica a menos de 58 km de nós. Em uma noite de boa visibilidade, a cidade é tranquilamente visível, assim como quase todos os municípios dessa região.

Se tiver oportunidade, visite alguns desses pontos. Não recomendo o “pico” mais alto, pois de lá a vista se restringe basicamente a Adamantina. Em pontos com boa altitude, temos um panorama incrível, onde é possível visualizar, aparentemente, todos os nossos vizinhos.

Como isso é possível?

Pode parecer impossível, mas existe um cálculo que leva isso em consideração. Contamos o ponto de observação, onde é feita, o objeto a ser observado, a altitude e a distância entre eles, sempre levando em conta a curvatura da Terra. Com isso, é possível determinar, em média, a distância visível a olho nu em dias bons e em condições favoráveis.

No caso de Adamantina, a cidade está, em média, a 380 metros acima do nível do mar, chegando em alguns pontos a 400 metros. Vamos partir desse valor.

O cálculo aproximado da distância até o horizonte é feito pela fórmula:

Distância (km) ≈ 3,57 × √altura (em metros)

Aplicando o cálculo:

Para 380 m:

√380 ≈ 19,49

3,57 × 19,49 ≈ 69,6 km

Para 400 m:

√400 = 20

3,57 × 20 ≈ 71,4 km

Ou seja, teoricamente, em dias bons, a distância máxima do horizonte visível a partir de Adamantina fica entre 70 e 71 km.

Há ainda fatores que podem auxiliar na visualização de municípios muito distantes, chegando até 90 a 110 km, como ocorre com as luzes de Araçatuba. Isso acontece principalmente devido à intensidade das luzes urbanas, à refração atmosférica e às condições climáticas.

Esse cálculo também nos permite compreender outro aspecto importante: o nível de luminosidade do céu da região, medido pela escala de Bortle. Essa escala varia de 1 a 9, em que 1 representa um céu totalmente escuro e 9 um céu intensamente iluminado. Em áreas urbanas, é comum que os centros das cidades alcancem níveis próximos ao Bortle 6, enquanto regiões mais afastadas tendem ao Bortle 5.

À medida que nos distanciamos ainda mais, especialmente em áreas rurais, chegamos a níveis entre Bortle 4 e 3, já considerados céus rurais, embora ainda sob influência da iluminação urbana. No nosso caso, os cálculos se confirmam pela escala de Bortle e justificam essa influência luminosa.

Pode parecer algo simples, quase irrelevante, mas talvez seja justamente nisso que mora o valor. Esse exercício nos faz lembrar de quantas coisas deixamos de observar, de quantos detalhes passam despercebidos enquanto seguimos apressados.

Por isso, deixo aqui um desafio: tente fazer esse teste. Procure, no horizonte, as luzes de Presidente Prudente e Araçatuba, municípios tão distantes e, ainda assim, presentes. Permita-se voltar a olhar com calma, a enxergar o longe e, sobretudo, a redescobrir as pequenas coisas que insistem em nos lembrar que ainda sabemos observar.

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