Determinados acontecimentos fazem-me sentir como se ainda estivéssemos vivendo na Idade Média. Tenho a impressão de que certas ideias, visões de mundo e atitudes daquela época jamais foram, de fato, superadas.
Sim, estou falando sobre mulheres. E, quando falo de mulheres, refiro-me a todas: negras, brancas, morenas, ruivas, indígenas, orientais, católicas, evangélicas, agnósticas, judias, muçulmanas, palestinas, árabes… Elas somos nós. E isso importa?
Minha indignação com o que vem acontecendo — de forma aberta e pública — com as mulheres cresce a cada dia. E, ao mesmo tempo, sinto que temos feito muito pouco para mudar essa realidade.
Vejamos o que ocorre agora no Oriente Médio. O Irã, com seu regime teocrático e opressor das mulheres, é atacado por países que, supostamente, as libertariam. Paradoxalmente, entre os primeiros bombardeios realizados por Israel e Estados Unidos, esteve uma escola de meninas, em Minab, no sul do país, resultando na morte de mais de uma centena delas — crianças entre sete e doze anos.
Segundo a jornalista Alessandra Orofino, no podcast Calma Urgente, o local foi bombardeado duas vezes. Trata-se do chamado “double tap”: dois ataques ao mesmo alvo, com um intervalo de tempo suficiente para que o primeiro atinja as vítimas iniciais e o segundo, aqueles que chegam para socorrê-las. Nessa escola estudavam filhas de militares e de pessoas influentes no Irã. O primeiro ataque teria servido para atrair os pais ao local; o segundo, para concluir o objetivo. Mataram primeiro as filhas e depois tentaram eliminar o verdadeiro alvo. Crianças usadas como isca.
Para a imprensa internacional, a justificativa foi a de um erro da inteligência artificial responsável por definir os alvos dos mísseis. Um erro técnico. A IA “errou” duas vezes… Será que, até mesmo para a tecnologia mais avançada, vidas femininas não importam?
Voltando o olhar para o Brasil, que acaba de celebrar o Dia Internacional da Mulher, é igualmente assustador constatar a epidemia de feminicídios e estupros coletivos.
Aqui em Adamantina, durante o lançamento de mais uma ação do projeto Soul Feminina, foram apresentados dados alarmantes: em 2025, 1.568 mulheres foram assassinadas no Brasil— mortas simplesmente por serem mulheres. Isso equivale a mais de 100 mulheres por mês.
Na semana passada, falou-se do estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro — um crime doloso e premeditado. Entre os agressores estava o filho de um político importante da capital carioca, aluno de um dos colégios mais tradicionais da cidade.
Mas, se até então, pela distância dos acontecimentos, talvez não estivéssemos dando a devida importância, esses absurdos chegam agora ao nosso quintal.
O recente caso de um jovem que divulgava e vendia imagens de meninas adolescentes da nossa cidade, em um grupo de conteúdo sexual no aplicativo Telegram, chocou a todos. O grupo teria cerca de 900 integrantes. As imagens eram manipuladas digitalmente para inserir os rostos das vítimas em corpos nus. Esse caso chegou às nossas casas, envolvendo nossas meninas.
Mas há ainda algo que precisa ser dito: o desrespeito absurdo e público de alguns homens, no campo profissional e político, em relação às mulheres. E nós, muitas vezes, apoiamos, relativizamos ou simplesmente não levamos isso a sério.
Um homem que afirma, em plenário, que sua colega deputada “não serve nem para ser estuprada” deveria ser banido da política. Outro, também político, que intimida e desrespeita uma ministra em uma reunião pública ao dizer que “a mulher merece respeito, a ministra não” — como se essa divisão fosse possível — não merece respeito, tampouco votos.
Escrevo tudo isso — que pode parecer “mais do mesmo” — para, mais uma vez, nos alertar. Mulheres de todas as posições políticas e ideológicas precisam assumir posturas firmes e contundentes no que diz respeito aos nossos corpos e às nossas mentes.
Devemos ensinar nossos filhos, filhas e netos a respeitar o ser humano — seja homem, mulher, pessoa LGBTQIA+, criança ou adolescente. É preciso eliminar o preconceito e o machismo, muitas vezes estrutural, que ainda moldam nossa sociedade. E nós, mulheres, precisamos nos respeitar, nos valorizar, competir menos entre nós e nos unir para construir um novo caminho, mais justo e verdadeiramente moderno.
Ao longo dos últimos dois séculos, conquistamos, com muita luta, o direito à educação, ao voto, ao trabalho, ao divórcio e à liberdade — ao menos em grande parte do Ocidente. Não podemos permitir que isso se perca justamente agora, quando temos a oportunidade de consolidar essas conquistas.
“Meu corpo, minhas regras” é um lema internacional que exige maturidade, autoconsciência e, acima de tudo, respeito. Precisamos fazê-lo valer.
A questão feminina vai ainda além. Deve ser encarada como uma questão de direitos humanos: igualdade de oportunidades direitos e deveres em todos os espaços e situações.
Faço minhas as palavras da ministra Cármen Lúcia, do STF, que, em palestra na Universidade de Brasília, alertou sobre essa “epidemia” de feminicídios:
“Parem de nos matar, porque nós não vamos morrer. Resolveram nos matar — intelectualmente, profissionalmente e fisicamente. Mas nós resolvemos viver.”
Vamos resistir. Sejamos firmes. Exijamos direitos, dignidade e respeito.
Nossos corpos e nossas vidas importam.













