Polarização ou analfabetismo social?

Confira o conteúdo assinado pela ativista Meire Cunha

Caro leitor,

Estamos em ano de eleições em nossa Pátria, o Brasil, e nos bastidores da política nacional já avistamos sinais de fumaça. Como sabemos, “onde há fumaça”…    

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Há gente se rastejando para fugir com vida de um possível incêndio, gente sem enxergar para onde vai e que certamente se perderá nessa jornada, e gente sem conseguir respirar, perdendo a consciência. Esta autora tem pensado muito em como as coisas chegaram a esse ponto, ou se as “coisas” nunca saíram desse ponto. Será que nós, humanidade, embora tenhamos enorme orgulho — às vezes uma discreta soberba — em saber que somos seres evoluídos, capacitados de inteligência e detentores de um vasto capital intelectual conquistado a duras penas ao longo de milhares de anos, na verdade ainda sejamos os mesmos seres do passado? Será que, ao olhar no espelho, o que vemos é o que escondemos? Será que sabemos exatamente o que queremos? Conseguimos traçar o caminho de para onde queremos ir, ou ao menos onde deveríamos estar?

E o que eleições democráticas, de um país democrático, de um povo democrático, têm a ver com o desenvolvimento do âmago do ser humano?

Quero trazer para nossa reflexão de hoje um nome especial: Mikhail Bakhtin. — Sim, eu estudei e conheço a obra dele, pois só cito quem me dou o direito de estudar para assimilar e compreender. Pois muito bem, esse pensador russo do século XX revolucionou a forma como entendemos a linguagem e a construção do pensamento. Para ele, a linguagem nunca é neutra, nunca é solitária:   ela é  essencialmente diálogo. Seu conceito de dialogismo nos mostra que todo discurso nasce em resposta a outro e está sempre em interação com múltiplas vozes. Já a polifonia revela que diferentes perspectivas coexistem, sem que uma única verdade absoluta precise silenciar as demais. Ler, portanto, não é apenas reconhecer palavras, mas entrar nesse jogo vivo de vozes, interpretar sentidos, questionar posições e construir significados. A partir dessa perspectiva, é possível compreender que a alienação política no Brasil contemporâneo, e em muitos outros lugares de nosso planeta — que é um globo — não se limita à manipulação de informações, mas está profundamente enraizada em uma deficiência estrutural da formação leitora da população. Para Bakhtin, ler não é apenas decodificar palavras, mas participar ativamente de um processo dialógico, no qual o sujeito interpreta, confronta e ressignifica discursos. Nesse sentido, a polarização ideológica que se intensifica em períodos eleitorais  não revela  divergências políticas, mas uma fragilidade de construção crítica coletiva:  grande parte da população consome discursos de forma passiva, reproduzindo narrativas simplificadas, muitas vezes falsas, sem exercer o papel responsivo que caracteriza a consciência crítica, a analise e ressignificação discursiva em uma dialogia. Essa condição pode ser interpretada como resultado de um modelo educacional que privilegia a formação técnica e funcional do indivíduo, para que ele consiga ler instruções para o trabalho, em outras palavras, para que se torne mão de obra, em detrimento da formação crítica, produzindo indivíduos conformados, aptos ao trabalho exaustivo e inquestionável, mas limitados na leitura profunda do mundo. Assim, a democracia se mantém formalmente ativa, porém esvaziada em sua essência participativa, pois carece de sujeitos capazes de dialogar de maneira consciente com os discursos que os cercam.

Essa metodologia teria sido criada e fomentada propositalmente?

Enfim, dessa forma, uma alfabetização verdadeiramente bakhtiniana — que forme leitores capazes de interpretar, questionar e dialogar — não é apenas uma questão educacional, mas uma condição fundamental para a saúde democrática. Sem ela, o debate público se reduz a ecos e repetições, e a cidadania, a um exercício fragilizado pela incapacidade de compreender criticamente a realidade. Penso que precisamos cuidar da renovação da educação de nossas crianças, para que cresçam com capacidade crítica de dialogar e interpretar o mundo como ele é — ou como ele se apresenta em cada etapa de nossa conjunta evolução, uma vez que, infelizmente, tenho a sensação de que nossas gerações se veem totalmente programadas a dizer “sim” para aquilo que for mais ou menos colorido, mais emocionante, mais debochado, mais absurdo e que, de preferência, tenha show de cadeiras agressoras — “digo”, voadoras.
No ano de 2026, em pleno século XXI, em meio a um milênio de glórias tecnológicas, é inadmissível que ainda nos deixemos levar por correntes de informações falsas de redes sociais e que alguns de nós se vejam na obrigação de se posicionar a favor de atividades que ceifam vidas de inocentes, enquanto outros tenham prazer extremo em assistir ao infortúnio de outros humanos (humanos como ele) e emitam opiniões sobre situações que não viveram e, portanto, não compreenderam, porém acreditam estar aptos a julgar e “torcer” pela continuidade da tragédia.

Mais grave ainda é permitir que nossos descendentes cresçam sem desenvolver a capacidade mais impactante do ser humano: a de construir capital intelectual por meio da troca de ideias, do diálogo e da soma de conhecimentos — e não pela produção de conflitos e pela alienação virtual, que programa o ser humano para uma vida “quase real”.

Penso que, enquanto  boas pessoas que são maus leitores se enfrentam, poucos e bons leitores, nem tão boas pessoas assim, com intenções obscuras, os manipulam, para que assim continue a milenar dança das cadeiras tabuleiro do xadrez colonizador.

Por findar essa reflexão, chego à conclusão de que a teoria bakhtiniana, se devidamente aplicada às escolas públicas e privadas, comporia a estrutura de um poderoso arsenal que, se usado, traria paz, prosperidade e desenvolvimento. Volto a afirmar: tudo parte da educação.

Gentil e querido leitor, desejo a ti e aos teus uma verdadeira nebulosa de conhecimentos úteis — dessas que não obscurecem, mas iluminam caminhos.

Obrigada por ter “LIDO” até aqui.

Boa reflexão.



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