O futebol de várzea de Adamantina, entre as décadas de 50 e 70, tinha seus craques, seus heróis e, como não poderia deixar de ser, seus personagens inesquecíveis. Entre todos eles, havia um que parecia maior que o próprio campo: Luizão Scarpari.
Luizão fez de tudo no futebol. Foi goleiro, zagueiro central, massagista, bilheteiro, bandeirinha e até juiz de partida. Se houvesse mais funções no futebol, certamente ele também teria exercido.
Com quase dois metros de altura e um porte que lembrava lutador de luta livre, Luizão era desses sujeitos que entravam em campo impondo respeito antes mesmo de a bola rolar. Tinha cara de poucos amigos, mas alma de cronista de botequim: adorava uma piada, um causo, uma provocação.
Certa vez, apitou uma partida no estádio da cidade. Em determinado momento marcou uma falta que desagradou um torcedor mais exaltado. Da arquibancada veio o grito que atravessou o campo como um rojão:
— Juiz FDP!
Luizão ouviu. Parou o jogo.
Caminhou lentamente até a lateral do campo. Parou, estufou o peito e, do alto dos seus quase dois metros de altura, perguntou com voz grave:
— Quem foi o covarde que xingou minha mãe? Pode se identificar antes de eu pular o alambrado?
O silêncio caiu sobre o estádio como um pano pesado. Ninguém respondeu.
O jogo recomeçou imediatamente. E, curiosamente, sem qualquer nova reclamação.
Mas a verdadeira obra-prima de Luizão aconteceria em outro cenário: um campo de várzea na Fazenda Arapongas.
Naquele dia ele fora convidado para ser goleiro. Aceitou. Só havia um pequeno detalhe: apesar da estatura monumental, Luizão tinha uma fraqueza técnica. As bolas rasteiras. Essas bolas traiçoeiras que passam sorrateiras por baixo do goleiro e deixam o sujeito com cara de retrato na parede.
E o destino, que às vezes é um grande cronista, resolveu preparar o enredo perfeito.
Saiu uma falta perigosa contra o time do Luizão.
O centroavante tomou distância, correu e bateu forte, rasteiro, passando pela barreira em direção ao canto.
Luizão pulou. Mas a bola passou por baixo da barriga e entrou devagarinho no gol.
Um frango histórico. Daqueles que fariam qualquer goleiro pedir transferência de cidade. Mas Luizão não era um goleiro qualquer.
Assim que percebeu o desastre, levantou-se num salto e começou a gritar desesperadamente:
— A cobra! A cobra! A cobra!
Foi um pandemônio.
Jogadores correram para todos os lados. O juiz parou a partida. Bandeirinhas se aproximaram. Parte da torcida invadiu o campo procurando a suposta serpente.
Durante alguns minutos, ninguém pensava mais no gol. Só na cobra. Naturalmente, cobra nenhuma foi encontrada.
Mas, diante da confusão generalizada, o árbitro tomou uma decisão salomônica: mandou repetir a cobrança da falta.
O centroavante, talvez ainda pensando na tal serpente, bateu novamente.
Dessa vez a bola subiu.
Passou por cima da trave.
Gol anulado.
Frango cancelado.
E Luizão, com a maior naturalidade do mundo, voltou para o gol como se nada tivesse acontecido.
Esse era Luizão. Um dos grandes incentivadores do esporte em Adamantina, figura carismática, divertida e absolutamente inesquecível.
Porque no futebol de várzea existem gols, derrotas, vitórias.
Mas o que fica mesmo são as histórias, as resenhas
E Luizão era, acima de tudo, uma delas.













