A dialética da estupidez

Confira o conteúdo assinado pelo empreendedor Renan Jordani

A nova safra de políticos promete, mas nada cumpre. São incontáveis as vezes que ouvimos “eu farei”, “se depender de mim”, “se eleito”. Se há uma lição a ser aprendida com campanha política é a de que ninguém promete tanto quanto aquele que não pretende cumprir nada. Mas essa é a retórica: a arte de não dizer nada falando tudo.

A cada quatro anos, uma certeza se acentua no país – a de que democracia é a crença patética na sabedoria coletiva da ignorância individualizada, e de que não passa da estúpida arte de administrar o circo a partir da jaula dos macacos. Em época eleitoral, todo mundo é amigo de todo mundo – “as aparências enganam”, já cantava Elis Regina.

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A responsabilidade do eleitor brasileiro é tamanha que não estamos preparados para tal. A impunidade assombra solta porque aceitamos tudo passivamente, acomodados em nosso mundo mesquinho de paus-mandado e sem opinião. Não temos ambição pelo país nem sabemos reconhecê-la; uma coisa que não tem fim é a ambição de político, porque ela é igual sua fome – sua única lei é seu apetite.

Interessantíssimo o fato vertiginoso de que mentir às massas para ganhar dinheiro é fraude, mas para angariar votos é política. Dinheiro público é igual água benta: todo mundo adora pôr a mão. Mas não se esqueça: roubar é crime. E o governo detesta concorrência.

Os politiqueiros que elegemos aumentam os zeros de paraísos fiscais, dossiês aqui, denúncias ali. Infelizmente a democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo – apesar do povo.

Há políticos que massificam a plebe como alienados conformistas sem-memória, cidadãos sem destino vêem na política um caminho alternativo e salvacionista – não arranjo emprego, vou ser vereador! Dá-me nojo a cara-de-pau dos oportunistas e arruaceiros de movimentos a, b e c; a canalhice de esquemas disso e daquilo; a roubalheira do nosso dinheiro escorrendo solta; a sem-vergonhice estampada em manchetes sensacionalistas.

O exemplo mais recente: na madrugada deste sábado, dia 28/03. Enquanto você dormia, parlamentares matavam a CPMI do INSS. Nomes, evidências, 4.340 páginas, bilhões desviados, tudo no lixo. O relator Alfredo Gaspar montou o quebra-cabeça de provas – mas em Brasília, prova sem força política não adianta. O problema não foi o relatório, mas o conteúdo: nomes poderosos, e quando se aponta para o topo, a investigação termina e a guerra começa.

Entre quarta e sábado, os bastidores ardiam: ou vota contra ou perde emenda, tchau cargo, fora do jogo; ou seja, foram votos de sobrevivência. O relatório tinha tudo: dinheiro comprando voto, influência comprando silêncio, e quando mexe-se nessa estrutura toda, a reação é brutal. Gaspar não perdeu porque estava errado, mas porque mexeu com quem manda. Congresso e STF juntos, numa decisão política disfarçada de jurídica, com discurso bonito sobre segurança institucional.

A oposição sabe, e também não é boba. Perdeu a votação e mudou o campo de batalha, jogando o relatório na imprensa; se não dá pra ganhar no Congresso, a opinião pública está aí. Rede social vira tribunal, e o tribunal da internet é mais rápido e raivoso que qualquer STF – perderam formalmente, mas ganharam narrativamente. No fim, o relatório não foi aprovado, mas o desgaste político foi dos dois lados – narrativa pra eleição, munição, porque política não funciona no resultado formal, mas no controle de estrago e no posicionamento pro futuro. A CPMI não ia prender ninguém, mas precisava criar sangramento político, e conseguiu. O governo não precisava provar que é santo, precisava não queimar demais, e também conseguiu. Todos ganharam algo.

A regra é clara: na política, justiça e poder são coisas diferentes. Quem ganha não é quem tem razão, é quem articula melhor, pressiona mais rápido, negocia na surdina, quem sabe contar voto antes da votação começar. Toda CPMI que mexe com gente grande acaba assim, investigação que ameaça o topo nunca chega no final – o sistema se protege sozinho. A investigação morre quando incomoda demais, e essa incomodou. E a mataram de madrugada, enquanto você dormia.

Spencer Kimball uma vez disse que “humildade é realeza sem coroa”. Muito cuidado em quem votamos nesses últimos tempos: quando o machado entrou na floresta, as árvores comemoraram: “o cabo é um dos nossos!”. Se ferraram. Bom-senso nas urnas, fazendo o mínimo que nos compete por direito: um político trabalhar. Como? Não o reelegendo. E isso não é apenas sobre políticos.

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@eujordani

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