O Brasil envelheceu – e agora?

Confira o conteúdo assinado pelo médico Alessandro Ferrari Jacinto

O Brasil está envelhecendo rapidamente – mas ainda não está preparado para isso. Em poucas décadas, deixamos de ser um país majoritariamente jovem para nos tornarmos uma sociedade em transição acelerada, com crescimento expressivo da população idosa. Essa mudança demográfica ocorre em ritmo mais rápido do que o observado em países desenvolvidos, porém sem o mesmo nível de preparo estrutural, econômico e social.

O sistema de saúde ainda é fortemente orientado para condições agudas, enquanto o envelhecimento traz consigo um aumento das doenças crônicas, multimorbidades, fragilidade e demandas por cuidados de longa duração. Falta integração entre os níveis de atenção, escassez de profissionais capacitados em geriatria e gerontologia, e pouca valorização de abordagens centradas na funcionalidade e na qualidade de vida.

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Além disso, o país enfrenta desafios importantes na área social. As famílias, historicamente responsáveis pelo cuidado dos idosos, estão menores e mais sobrecarregadas. Há carência de políticas públicas efetivas para suporte ao cuidador, bem como insuficiência de instituições de longa permanência com qualidade e fiscalização adequadas. O envelhecimento, muitas vezes, ainda é tratado como um problema individual, e não como uma questão coletiva e estrutural.

Do ponto de vista urbano, as cidades brasileiras não foram planejadas para uma população envelhecida. Barreiras arquitetônicas, transporte público inadequado e falta de acessibilidade limitam a autonomia dos idosos e aumentam o risco de isolamento social e de eventos adversos, como quedas.

Economicamente, o impacto também é significativo. A pressão sobre os sistemas previdenciário e de saúde tende a aumentar, enquanto a força de trabalho diminui proporcionalmente. Sem planejamento, isso pode comprometer a sustentabilidade de políticas públicas essenciais.

Diante desse cenário, é urgente repensar o envelhecimento no Brasil. Não se trata apenas de viver mais, mas de viver melhor. Investir em prevenção, educação em saúde, envelhecimento ativo, formação profissional e políticas intersetoriais não é uma opção – é uma necessidade. O envelhecimento populacional não deve ser visto como uma crise, mas como uma conquista que exige responsabilidade, planejamento e compromisso coletivo.

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