Era o comecinho de 1970, o icônico ano do mundial de futebol no México, que se iniciaria em 31 de maio, e no qual a seleção brasileira conquistaria o tricampeonato.
O ano letivo começara em fevereiro e, ainda morando na vizinha cidade de Mariápolis, passei a cursar o sexto ano do ginasial (primeiro grau), no Instituto “Helen Keller”, que à época ocupava o prédio onde atualmente funciona a Escola “Fleurides”.
O percurso entre as duas cidades era feito por estrada de terra, em ônibus de linha, alguns do tipo jardineira que eram dotados de bagageiros no teto.
O ponto final em Adamantina era na rodoviária, localizada na esquina da rua General Isidoro com a avenida Capitão José Antônio de Oliveira. Bem próximo, bastando atravessar a rua no sentido do centro, ficava o Bazar do Ponto.
Da rodoviária ao Helen Keller, o trajeto, ladeira acima, era feito a pé e a passos largos, quase correndo. Significava chegar quase sempre atrasado à sala de aula que ficava no pavimento superior do vistoso prédio de fachada quadriculada, todo imponente no espigão da Santa Casa.
Apesar de gostar muito de estar na escola, vibrava quando tinha a última aula vaga, porque isso me permitia chegar mais cedo à rodoviária, bem antes do horário do ônibus, e ficar fazendo hora diante da vitrine do Bazar do Ponto, admirando os carrinhos de brinquedo feitos de metal.
Vários eram movidos a controle remoto e constituíam réplicas perfeitas dos veículos que circulavam nas ruas, e que eu admirava tanto: Corcel quatro portas, Fusca galheiro, Gordini, Aero Willys, Jeep, Kombi, Rural, F-75, Chevrolet C-14, Ford F-100… Alguns caracterizados como viaturas policiais, carros de bombeiros, ambulâncias, etc.
Quanto desejei ter um desses carrinhos!…
De tanto me verem por ali, os donos do estabelecimento já me tratavam com familiaridade e nem perguntavam mais se eu queria alguma coisa, pois claro estava que a resposta seria sempre a mesma: “Não, obrigado”. Nunca tinha dinheiro, exceto para o lanche — coxinha de carne — adquirida no mesmo carrinho de pipoca que ficava estacionado em frente ao portão de entrada da escola.
Acho que o Bazar do Ponto tinha esse nome porque ficava perto da estação rodoviária — ponto de ônibus — onde se destacavam os guichês das empresas, bares, mictórios, lojinha de discos, etc., sempre movimentados. E quando digo que eu “batia o ponto” ali, estou usando essa expressão como gíria, significando o hábito de alguém ir a um local com frequência.
Já muitas vezes me vi sonhando com tudo isso, revivendo esses momentos com tanto realismo, que me parece estar numa viagem através do tempo, da qual retorno mergulhado em nostalgia, saudoso da infância em uma cidade que, definitivamente, não existe mais.















