Telas: usando bem, que mal tem?

Confira o conteúdo assinado pela jornalista Márcia Molina

Mas aí é que está o problema: como usar bem esse suporte tão onipresente nos dias de hoje? Ao mesmo tempo em que nos traz cultura, apoio nas mais diversas áreas e comunicação com o mundo inteiro, ela também pode ser um veículo perigoso. Todos sabemos disso. Mas é fato que cada vez mais nos apegamos a ela(s) e deixamos nossos pequenos (filhos, netos, sobrinhos) grudarem nessa eficiente babá, que pode trazer consequências não muito agradáveis daqui alguns anos. Mas como lidar com isso?

Quando me refiro a telas me refiro a tudo que vem por meio delas como redes sociais, streamings, sites, e que moldam nosso cérebro a uma atenção fragmentada e rasa.

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Não tenho respostas. Nem de longe. Mas tenho passado por isso ultimamente. As crianças a minha volta, principalmente os netinhos queridos, parecem não querer mais saber do mundo real. A eles parece só interessar o mundo virtual. Esse mundo colorido, bidimensional, sem sabor, sem cheiro, mas, aparentemente, cheio de cores e emoções.

Meu filho mais novo (hoje a espera de seu filho, meu neto, que chega em maio) me deu um certo trabalho em relação aos videogames e computadores. Na época, tudo estava começando e,  muito diferente do irmão mais velho, que curtia futebol, tênis e outros esportes, ele gostava mesmo era da tela. Foi uma luta infindável. Diria que o jogo empatou. Hoje ele é engenheiro, trabalha na área do marketing digital e construção de sites, mas também joga tênis (e bem) e faz seu Pilates para manter a coluna em ordem. Porém ele fez parte de uma geração que ainda estava em transição. Hoje tudo avançou e não conseguimos mais ficar off line mais que 30 segundos. E a criançada, se não for devidamente estimulada, vai acabar não achando muita graça na realidade.

Mas o grande problema que noto é a atenção fragmentada gerada pelas redes sociais ou mesmo pelos vídeos curtos do You Tube. Enquanto olhamos para a tela, o cérebro libera dopamina, criando sensação de prazer e incentivando a continuidade da ação. A atenção acaba sendo fragmentada afetando a concentração e consequências nefastas na aprendizagem e mais tarde, no trabalho.

Numa recente reportagem no Canal do Meio* o jornalista Adriano Oliveira entrevistou pesquisadores e estudiosos no assunto. Ele explica que redes sociais e vídeos, mesmo os infantis ou voltados a adolescentes, tenham um corte de cenas frenético em um curto intervalo de um minuto. “É muito estímulo para um cérebro que está em desenvolvimento”, afirma a pesquisadora Virginia Chaves. Não só isso. As cores usadas em conteúdos infantis não raro são muito fortes, com tons excessivamente vibrantes e cintilantes. Depois de um tempo consumindo esses vídeos, as crianças vão para o mundo real, onde as cores são mais opacas, o que pode dar uma sensação de vida “sem graça”, mesmo que elas não saibam expressar esse sentimento”.

Estamos no meio de um problema cujas consequências não sabemos ainda quais serão. Mas é fato que precisamos nos policiar e cuidar mais de nossas crianças. Oferecer livros, atividades manuais, prática de esporte e tocar instrumentos musicais são com certeza ótimos caminhos. Podem dar muito certo, apesar da resistência inicial.

É difícil negar aos nossos pequeninos (principalmente para nós, avós do século XX) uns minutos de tela, seja um joguinho, um you tube, ou vídeo cleps no Spotfy. Também é difícil não atender aos pedidos, no aniversario ou Natal, por aquele videogame bacaninha que os pais não “quiseram” comprar, mas que o amiguinho tem.

No entanto, segundo os estudiosos e cientistas, é necessário. Pelo menos até que esse cérebro amadureça e esteja preparado para tomar decisões, serem criativos e aprenderem a lidar com a própria imaginação. O cérebro precisa de “descanso” para imaginar, elaborar, aprender e armazenar o que realmente importa. Aliás, é do tédio ou do tempo livre (o famoso ócio criativo) que surgiram as grandes ideias. Para isso pais e avós devem permanecer vigilantes. E digo a vocês: não está sendo fácil.

 * https://www.canalmeio.com.br/edicoes/2026/04/04/edicao-de-sabado-microaten-ih-um-video-de-gatinho/

Marcia Molina Fonseca é jornalista, professora, adamantinense e avó de Nicolas (6), Beatriz (6), Arthur (4). Aguardando o netinho Vitório que chegará em breve. É tia avó da Alice (3) e do Benício (10 meses).

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