O que Adamantina me ensinou sobre reality show

Confira o conteúdo assinado pelo jornalista Eduardo Graboski

Nasci aqui. Volto sempre, quase todo mês. E toda vez que venho, faço o teste mais honesto sobre o que realmente está bombando no Brasil: converso com gente daqui. Sem Twitter. Sem Instagram. Sem bolha de entretenimento. Sem profissional de mídia explicando que “o assunto está quente”.

Dessa vez, falei sobre a Casa do Patrão, novo reality de Boninho na Record, o mesmo canal que emplacou A Fazenda. A cada oito pessoas, duas sabiam do que eu estava falando. Quando muito.

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E não digo isso como crítica ao programa. Digo porque é curioso. Não estamos falando de algo obscuro. É Boninho. É o tal Big Boss. É Record. É confinamento, disputa, dinheiro, poder. Dentro da bolha de TV e entretenimento, o programa existe. Tem chamada, repercussão, análise, torcida. Aqui fora, o buraco é outro.

E aqui, neste caso, não é só Adamantina. É o Brasil afora. Muita gente sabe o que aconteceu na novela ontem. Sabe quem traiu, quem morreu, quem vai casar. Mas não sabe quem está confinado, quem virou patrão, quem tretou ou quem saiu.

A novela já entra na casa das pessoas como velha conhecida. O reality novo precisa bater na porta, se apresentar, explicar a dinâmica, mostrar os participantes e ainda convencer o público de que vale a pena perder tempo com aquelas pessoas.

O BBB, por exemplo, não é apenas um programa. É um hábito nacional. As pessoas já conhecem o vocabulário: paredão, líder, anjo, planta, favorito, cancelado, mutirão. Até quem não assiste entende o jogo.

Um reality novo não tem essa mordomia. Precisa ensinar o público a se importar do zero. E, em 2026, isso é quase ingrato. Assunto não falta. Tem novela, futebol, TikTok, fofoca, política, série, streaming, influencer chorando, coach vendendo curso… A fila da atenção está parecendo porta de lotérica em dia de pagamento.

Por isso, talvez a pergunta nem seja se a Casa do Patrão é boa ou ruim. Ou se virou hype ou não. A pergunta mais interessante é outra: quanto tempo um reality novo precisa para virar hábito? E o que a TV precisa fazer para conquistar?

Porque a bolha da mídia adora confundir repercussão com popularidade. Uma coisa é ser comentado por quem comenta televisão. Outra, bem diferente, é chegar ao café, ao salão, à fila da farmácia, ao almoço de família, ao grupo de WhatsApp.

Talvez a Casa do Patrão não esteja disputando apenas com outros realities. Está disputando com o costume. E costume, no Brasil, é coisa séria. É a novela que a família assistia antes de você nascer. É o futebol de domingo. É o programa que a sua mãe não desliga por nada. Nenhum hype na internet derruba isso com três semanas de chamada.

Popularidade de verdade é quando o assunto escapa da bolha. Quando a tia pergunta quem saiu. Quando o atendente do café sabe o nome do participante. Quando o cabeleireiro tem opinião formada sem ter procurado saber. Até lá, existe uma distância enorme entre ser comentado e ser conhecido.

Boninho sabe criar televisão. O desafio agora é criar hábito. E hábito não se faz só com formato. Se faz com tempo. No fim, Adamantina me lembrou uma coisa simples: entre a bolha e o Brasil real existe um caminho longo. E, para qualquer novidade, esse caminho talvez seja o paredão mais difícil de vencer.

Ah, só para constar: esse artigo não é só sobre televisão e reality.

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