A morte

Confira o conteúdo assinado pelo empreendedor Renan Jordani

Querida Sofia:

Escrevo-te esta carta para que saibas que estou vivo. Pois é, ao contrário do que especula-se na imprensa e páginas de fofoca. Asseguro-lhe também, conforme o combinado, de que, conforme seu desejo, ninguém sabe de sua existência como minha filha de outro relacionamento – a não ser, claro, meu advogado; mas fique despreocupada, Toledo é um bom homem e exímio profissional.

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Por trocas anteriores, partilhei-lhe de minha ligeira esquizofrenia quanto a uma morte iminente (não por ter medo da morte em si – desde que não seja a minha, claro), e por isso procuro evitar situações de risco; medo este um tanto agravado após os acontecimentos de sábado último, que conto agora.

O fato é que voltava de uma degustação de uísque para poucas pessoas, quando me vi eu e o motorista sendo perseguido incansavelmente por paparazzis sobre duas rodas. Comecei a ficar meio mal, não gosto de velocidade (a rapidez que alucina é a mesma que mata), e só aí percebi a situação em que estava: fugindo de fotógrafos num túnel e em alta velocidade, nas mesmas condições em que se acidentara a princesa Diana na França! Após tal constatação, danei a ficar ruim de uma tal forma que Henri Paul – que terrivelmente tem o mesmo nome do motorista da princesa – teve de me dirigir a um pronto-socorro. Uma loucura.

Bem, e o resto você já imagina. Fui internado com princípio de infarto, tive de ficar em observação por uma noite, e só depois pude retornar para casa. Nesse meio tempo em que a imprensa especuladora tentava descobrir meu estado, eu imaginava a situação das unhas de minha ex-mulher, cuja curiosidade sobre meu testamento é maior que sua ambição.

Já em casa, depois de um merecido descanso, acompanhava as cotações da bolsa pela Internet, quando uma nota de um jornalista sensacionalista me chama atenção: “Morre o bilionário Ciro Guedes, aos 65 anos”. Ora, congelei na hora, visto que Ciro Guedes sou eu e ainda vivia, mas tinha morrido e não sabia! Li a nota incrédulo: eu havia falecido no dia em que tivera alta por complicações cardiovasculares. Foram rápidos, pensei, está até no Insta; ou seja, todos sabiam, menos eu. Em suma, como diz o ditado, havia morrido e esquecido de deitar. Que drama.

Entretanto, antes que chores por um morto que ainda vive, agora sabes por estas linhas que continuo sobrevivendo, para desgosto e surpresa de muitos. Inclusive há pouco, ao telefonar para minha empresa e avisar de que me ausentaria por um tempo, não pude deixar de notar um certo pânico na voz de Clarice, minha secretária, que devia achar estar falando com um defunto.

Enfim; tens maior conhecimento de meus receios à morte súbita, principalmente por saber que só se morre uma vez, e por tanto tempo! És minha única alegria sincera na vida, a única que gosta de mim pelo que sou, não pelo que tenho. E, por essas e outras, gozando de plena saúde mental, tomo a precaução de lhe deixar todo o meu patrimônio através desta carta-testamento, revogando todos os anteriores, antes que as más línguas resolvam matar-me novamente. Que vida.

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@eujordani

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