Há músicas que atravessam o tempo não apenas pela melodia, mas pelas verdades que carregam. Morro Velho é uma delas. Gravada por Milton Nascimento em 1967, a canção revela, com delicadeza e tristeza, a história de dois meninos que crescem juntos em uma fazenda: um preto, filho do empregado; o outro, branco, filho do patrão. Na infância, porém, as diferenças parecem não existir. Entre passarinhos, riachos e brincadeiras, os dois compartilham a liberdade simples dos dias de criança.
Mas o tempo passa, e a vida começa a mostrar os caminhos que cada um deverá seguir. Chega o dia em que o filho do patrão parte para estudar na cidade. Na despedida, antes de deixar o companheiro na estação, ele diz, com os olhos tristes: “Não esqueça, amigo, eu vou voltar”. Anos depois, retorna à fazenda com o título de doutor e o lugar de mando que o destino lhe reservara desde o nascimento. Enquanto isso, o velho companheiro já não brinca nem sonha como antes. Trabalha. A amizade permanece na memória, mas a realidade impõe, silenciosamente, a distância que a infância não conhecia.
Essa comovente história, retratada com maestria por Milton Nascimento, foi inspirada em um caso real que o cantor conheceu em uma das muitas viagens que fez à fazenda de parentes do amigo Wagner Tiso, no Sul de Minas. Quando perguntado sobre a música, Milton costuma dizer: “Na fazenda conhecemos um camarada muito bom que se chamava Aniceto e que tinha um filho que convivia com o pessoal da fazenda. O trem passava ali perto…. Então, tudo que tem em Morro Velho é verdade. ”
A mensagem transmitida pela melodia costuma tocar a alma de quem se preocupa com o próximo. Elis Regina, em um show no Anhembi, em 1977, ao terminar de cantar Morro Velho, começou a chorar e disse à plateia: “Para mim, essa é a Casa-Grande & Senzala da música brasileira. ” Em 1998, foi a vez de Fagner viver momento semelhante. Ao gravar Morro Velho, junto com Milton Nascimento, percebeu o amigo chorando e também se emocionou com a força existente na letra da música.
Ao expor uma das perversas engrenagens da desigualdade social brasileira, a música Morro Velho acabou despertando a ira da velha elite agrária. Curiosamente, muitos dos herdeiros dessa mesma elite, que hoje proferem discursos inflamados contra as leis de cotas e os programas sociais, foram beneficiários diretos da Lei Federal n° 5.465/68, a célebre “Lei do Boi”, instituída durante o mandato do ditador Costa e Silva para assegurar privilégios justamente àqueles que menos precisavam deles. Explico.
A Lei Federal n° 5.465/68, foi a primeira lei a garantir cotas nas universidades públicas do nosso país. E acredite, caro leitor, pelo período (ditadura) e pelo ocupante da cadeira de presidente na época, essa lei de cotas não foi criada para os pobres. A “Lei do Boi”, como o próprio apelido diz, foi criada para atender os filhos dos fazendeiros. Vejamos alguns trechos da injusta norma jurídica.
“Art. 1°. Os estabelecimentos de ensino médio agrícola e as escolas superiores de Agricultura e Veterinária, mantidos pela União, reservarão, anualmente, de preferência, 50% (cinquenta por cento) de suas vagas a candidatos agricultores ou filhos destes, proprietários ou não de terras, que residam na zona rural e 30% (trinta por cento) a agricultores ou filhos destes, proprietários ou não de terras, que residam em cidades ou vilas que não possuam estabelecimentos de ensino médio.
- 1° A preferência de que trata este artigo se estenderá os portadores de certificado de conclusão do 2° ciclo dos estabelecimentos de ensino agrícola, candidatos à matricula nas escolas superiores de Agricultura e Veterinária, mantidas pela União.”
Embora fosse estabelecido pela lei que 50% das vagas eram para agricultores ou filhos, proprietários ou não de terras, que moravam na zona rural, e 30% para agricultores ou filhos, proprietários de terras ou não, que residiam nas cidades e vilas que não possuíam estabelecimentos de ensino médio, na prática isso não garantia que pobres ou pequenos agricultores tivessem acesso às universidades públicas.
A difícil condição de vida no campo e a falta de informação faziam com que pobres e pequenos agricultores desconhecessem a lei. Em resumo, a “Lei do Boi” havia sido criada para a elite rural, até porque apenas ela tinha condições financeiras para manter um filho estudando em uma cidade distante. Os pobres e pequenos agricultores precisavam dos filhos trabalhando nas lavouras para ajudar na sobrevivência da própria família. Coisas que são convenientemente “esquecidas” pelos autointitulados conservadores.
A “Lei do Boi”, vigorou entre 1968 e 1985, portanto, só foi revogada após o fim da ditadura militar. Hoje em dia, quando vejo “intelectuais” formados pelas fake news que circulam na internet (a maioria deles situada no sopé da pirâmide social) revoltando-se contra as cotas raciais nas universidades e, mais ainda, contra programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, entendo porque a desigualdade social no Brasil não vai acabar tão cedo. A esses “intelectuais”, dedico a música Morro Velho, de preferência na voz de Milton Nascimento ou de Elis Regina.
















