Kiko Micheloni (Foto: João Vinícius | Grupo IMPACTO)

Prefeito de Adamantina por dois mandatos, de 2005 a 2012, José Francisco Figueiredo Micheloni, mais conhecido como Kiko Micheloni, ainda é uma figura emblemática nos bastidores políticos. Entre a população o nome do pecuarista é sempre lembrado, principalmente depois dos problemas enfrentados pelo seu sucessor.

A cassação de Ivo Santos (2013-2015) fez com que o grupo de Kiko Micheloni retornasse quatro anos após ter deixado a Prefeitura, com a eleição desta vez de Márcio Cardim. Agora, o Democratas enfrenta um grande desafio para permanecer no comando do Executivo municipal.

Com um possível racha, o partido busca encontrar em lideranças, do estilo de Kiko Micheloni, o eixo para o próximo pleito. Porém, a tarefa não será simples, já que um dos principais nomes do partido não pretende “apagar o fogo” causado pela possível ruptura de Márcio Cardim e do vereador Acácio Rocha – ambos do DEM e pré-candidatos a Prefeitura de Adamantina.

Em entrevista ao IMPACTO o ex-prefeito diz que não se sente capaz de unificar a legenda. Coloca como natural o surgimento de várias lideranças dentro de um mesmo partido, mas se diz insatisfeito quando a divisão ocorre por falta de diálogo.

LIDERANÇA

Com a vida dedicada aos afazeres particulares, Kiko é dificilmente encontrado em Adamantina. Passa dias e até semanas em sua propriedade no Mato Grosso.

Apesar de sempre ser citado como uma liderança, ele se coloca distante do posto, muito por não conviver diariamente com o contexto político na cidade. Porém, se posiciona de forma contundente sobre os acontecimentos, que têm como centro a gestão de Márcio Cardim.

“Em relação à minha liderança, no sentido de cacique, como sempre escuto, sinceramente não me sinto. Até porque nunca busquei isso, sempre segui o ditado: rei morto, rei posto! Desde que deixei a Prefeitura, vou toda semana para o Mato Grosso, com raríssimas exceções. Não quero atrapalhar ninguém. Então não me sinto essa liderança, embora algumas pessoas se referem à mim como um grande líder. Não me coloco nesta posição. Me posiciono como todas as pessoas que esporadicamente debatem a política”, pontua.

A esposa de Kiko, Ana Maria Romanini Micheloni, é atual vice-prefeita. Ele relembra que a professora aceitou o desafio no “sacrifício”, já que havia outros planos pessoais. “Porém, para o bem da cidade, a Ana acatou o pedido do grupo. Não aguentou a pressão para que ajudássemos a não ter nenhuma surpresa na eleição. Quando o nome dela foi inserido na pesquisa, o Márcio passou de cerca de 55% para 82% das intenções de votos, graças ao bom nome que ela, Ana, construiu durante sua trajetória”.

Mesmo com a esposa na atual gestão, Kiko diz não opinar sobre o que deve ser feito. “Não interfiro, só dou palpite quando raramente sou solicitado. Nunca falei contrata ‘fulano’ ou ‘ciclano’. O fato de alguns que trabalharam comigo estarem na atual Administração foi devido durante a campanha terem conquistado a confiança do Márcio”, diz.

O certo distanciamento é comprovado entre o contato do atual prefeito com seu criador. Segundo Kiko,  os dois conversaram apenas uma vez. Foi na gestão de Kiko que Márcio Cardim assumiu a direção da então FAI (Faculdades Adamantinenses Integradas), que o projetou local e regionalmente. “Ele foi minha cria na faculdade. Na prefeitura, talvez eu tenha sido o que mais incentivou a candidatura dele, mas houve uma aprovação do partido, por várias pessoas. Não foi imposto. Pelo trabalho dele e da equipe, principalmente pela conquista do curso de Medicina e reorganização da instituição, na parte econômica, ele conquistou o direito de disputar o Executivo”.

AVALIAÇÃO

Kiko diz estar satisfeito com a atual gestão, porém, faz ressalvas. “Por respeito a Ana e ao partido, realmente estou satisfeito com a administração do Márcio, mas não significa que eu esteja cego e não enxergue nenhum tipo de problema. Ressalto, estou satisfeito. Não tivemos até hoje nenhum escândalo na Prefeitura, improbidade, qualquer desvio de dinheiro. Podem falar que é obrigação, mas no Brasil não funciona desta forma!  Ele pegou uma situação difícil, com prefeito cassado”.

Kiko compara o início de sua gestão com a do Márcio para fazer a avaliação. “Peguei uma Prefeitura totalmente desestimulada, desestruturada, mas não peguei com falta de dinheiro. E tive a sorte que na minha época havia a renovação do Banco Itaú [folha de pagamento] e do contrato com a Sabesp, que ajudaram a fornecer remédios para população, ter feito asfalto e outras benfeitorias. Pelo contrário, a atual Administração pegou a Prefeitura arrombada, cheia de problemas, várias ações em curso e, mesmo com tudo isso, ele conseguiu resgatar muitas coisas que estavam se perdendo, como a demora para efetivação da Fatec [Faculdade de Tecnologia] e o posto de saúde do Jardim Brasil. De forma alguma, não é uma perfeição. Ele sabe que tem as dificuldades por sempre ter atuado na área acadêmica. Tem dificuldade na área política, com os próprios vereadores, com a imprensa e a população em geral”, avalia Kiko.

O ex-prefeito recorda que no início de gestão do Márcio o contato era mais constante. “Com toda franqueza, se conversei com Márcio uma vez este ano foi muito. Mesmo porque, após aqueles primeiros meses que ele assumiu o governo, ligava, perguntava alguma coisa, eu disse que agora é com você, forma sua equipe, se vira”.

DIVISÃO

A entrevista com Kiko Micheloni acontece após o prefeito Márcio Cardim anunciar, internamente, que será candidato à reeleição e solicitar a retirada de Acácio Rocha da presidência do partido.

Nos bastidores políticos, a expectativa é a busca de uma união, partindo do ex-prefeito. “Não me sinto capaz de resolver um problema deste. Se eu for chamado, como participante ainda do partido, ainda até por respeito à Ana e ao Márcio, vou como qualquer outro membro”.

Kiko recorda um almoço realizado pela Paróquia Santo Antônio depois da missa do Padroeiro, em 13 de junho deste ano, que solicitou diálogo entre os membros do Democratas. “Estavam na mesa vereadores, prefeito e vice. Cheguei e pedi: diálogo, diálogo e diálogo. É a única forma que vejo para resolver. Estamos em junho, daqui a pouco chegaremos a setembro. Então se conversem. Se chegar ao ponto de um sair para lá, e outro vim para cá, isso é natural na política. O que não pode acontecer é por falta de diálogo. Depois não venham chorar o leite derramado. Não vou apagar incêndio de ninguém”, disse.

Ele enfatiza preocupação com o possível racha. Além de Acácio e Márcio, o nome do presidente da Câmara, Eder Ruete, que também faz parte da legenda, é cogitado para disputa do Executivo em 2020.

“Não existe um culpado. Acredito que a falta de diálogo, de habilidade política e conversa entre os poderes Executivo e Legislativo tenham sido os pontos principais para esta situação. Se há por traz alguma outra situação, isso não sei, nunca me falaram. Mas, o que fica estranho é ter chegado a este ponto dentro do mesmo partido”.

Ele diz ainda que a solução do entrave político fica mais complicado com a negação de Acácio Rocha em ser vice de Cardim. “Vou incentivar para que haja reunião e diálogo. Mas não me sinto capaz de resolver sozinho, e também não tem cabimento, pois somos um grupo e darei apenas a minha opinião pela conciliação e reconciliação. O que fica mais grave é o Acácio ter dito que não aceita ser vice em hipótese alguma. A regra de quase todos os partidos é que o atual prefeito seja o candidato natural a reeleição, a prioridade é dele. Aí que digo ser uma situação difícil. Mas é um direito do Acácio em desejar ser prefeito”.

APOIO POLÍTICO

Questionado sobre o seu apoio político no próximo ano, Kiko diz que não participará do processo eleitoral de forma efetiva. “Não estarei engajado na campanha de ninguém. Minha parte já passou. A Ana também tem dito isso. Como cidadão, quero ver as propostas, o planejamento para os próximos quatro anos para fazer minha escolha. Se não encontro com o Márcio, com o Acácio muito menos. Mas tenho muita consideração pelo Acácio. Tenho respeito, foi secretário em minha gestão, deixou um belíssimo trabalho e não poderia cometer, até a definição concreta, a indelicadeza com qualquer um que seja”, comenta.

“Acho que o Marcio está bem, mas deveria ter mais engajamento com a população e mais diálogo com os vereadores. Talvez tenha sido uma das coisas que eu falhei também, por isso dou este conselho”, complementa.

Kiko finaliza a entrevista enfatizando uma posição pessoal, o que fez ele não concorrer a nenhum outro cargo político novamente. “Primeiro lugar, política não é profissão. Tenho isso comigo mesmo antes de ser prefeito. Você pode ter uma reeleição, foi bem, está engajado, então é natural. Talvez tenha sido esta a decisão do Márcio, que sempre disse que não queria mais. Ele se vê no meio do caminho e também entra um pouco de vaidade, algo natural do ser humano. Mas, principalmente no Legislativo, é necessário haver sempre espaço para novas cabeças e ideias. Política não pode virar uma profissão”.

Kiko Micheloni (Foto: João Vinícius | Grupo IMPACTO)