O futebol de várzea não se explica — se sente. É barro no tornozelo, poeira no peito e memória no coração. É ali, no meio das guanxumas, buracos, carrapichos, entre traves tortas e linhas imaginárias, desníveis de terrenos que fariam qualquer engenheiro mudar de profissão, que nascem os personagens que nenhuma súmula registra, mas que o tempo se recusa a apagar.
Noé era um desses personagens.
Irmão do “Marroco”, outro personagem icônico do futebol adamantinense, Noé atendia também pelo apelido de “Sapo”, desses que a gente não escolhe, mas acaba vestindo como segunda pele. Amava o futebol com uma fidelidade comovente. Mas o futebol, esse bicho exigente, nunca lhe deu a devida correspondência com a bola nos pés.
Noé, então, fez o que fazem os apaixonados quando não são correspondidos: mudou de lugar no campo, mas não abandonou o jogo.
Virou árbitro e bandeirinha
E, aos domingos, cumpria seu ritual como quem se prepara para uma final de Copa do Mundo. A sacola debaixo do braço levava mais que apito, chuteira, meião e uniforme — levava um sonho persistente. Ia de campo em campo, farejando partidas como um caçador de jogos de futebol. Onde houvesse dois times e uma bola, ali estava Noé, pronto para colocar ordem na casa.
Mas o futebol, generoso com alguns, era travesso com ele.
Apitava com coragem, é verdade. Mas também com uma liberdade criativa que as regras não previam. Invertia faltas, embaralhava lances, confundia o certo com o possível. E conseguia um feito raro: irritava, com justiça igual, os dois lados.
Era um árbitro democrático no erro.
Num desses jogos no estádio municipal, marcou um pênalti. Foi cercado. Voltou atrás. Cercado de novo… Confirmou! Cancelou! Confirmou! E assim, seguiu, como maré indecisa, indo e vindo seis vezes sobre o mesmo lance. Até que os próprios jogadores, num gesto de lucidez coletiva, decidiram pela cobrança do penal
O atacante chutou para fora. Para alívio de Noé, o resultado ficou inalterado.
E o futebol, sábio como sempre, tratou de encerrar o assunto sem precisar de mais apitos.
Como bandeirinha, Noé era de uma objetividade desconcertante. Nos jogos do Guarani em casa, com ele de bandeirinha, quando a bola saía pela lateral — pouco importava quem a tivesse tocado por último— e lá estava o Noé, gesto firme, decidido, bandeira no alto, quase solene decidia:
— “É bola nossa.”
Mas foi na zona rural que Noé escreveu sua aventura mais marcante.
Chamado para apitar Tucuruvi x Aidelândia, aceitou o desafio como quem atende a um chamado maior. Era jogo grande. Rivalidade que lembrava clima de véspera de uma guerra civil. Semana toda só se falava no dérbi da zona rural. Daqueles em que o campo encolhe e a torcida cresce.
De um lado, um time forte jogando em casa, quase imbatível. O Tucuruvi. Que estava invicto a vários meses. Diziam que no goleiro Talin não passava nem pensamento. Nos momentos difíceis das partidas o juiz dava uma mãozinha ao time da casa, normalmente no finzinho da peleja.
Do outro lado, um timaço, a Aidelândia da família Bortoleto. Izidoro Bortoleto era o craque do time e um dos melhores meias de toda região. Era 10 jogadores de sobrenome Bortoleto.
Apenas o centroavante tinha outro sobrenome.
Era o Valdo Siqueira, filho do Seu Lindolfo que morava na Fernão Dias.
Casado com uma moça de sobrenome…Bortoleto
O jogo era no Tucuruvi, naquele campo vizinho do armazém do saudoso Seu Euclides, onde se fazia a melhor linguiça de porco da região. Tradição mantida até hoje pelos herdeiros.
Jogo pegado, divididas que saiam até faísca e placar marcava um a um. O tempo já se despedia.
44 do segundo tempo.
A torcida do Tucuruvi, inquieta, esperando o desempate, já respirava quase dentro do campo, nervosa e agressiva, a um passo de invadir o gramado, esperando a ajuda do juiz, como sempre ocorria em jogos duros em casa.
E então, no último suspiro do jogo, aos 45 minutos, Noé soprou o apito e apontou para a marca da cal.
Pênalti.
Para a Aidelândia…
O silêncio durou menos que o gesto. Logo veio o estampido humano da revolta. A multidão avançou revoltada, como estouro da boiada, invadiu na caçada ao juiz. E Noé, fiel à sua melhor qualidade naquele dia, decidiu rápido.
Correu…
Correu como nunca havia corrido em campo algum. Cruzou o gramado, venceu o limite do jogo, mergulhou no cafezal como quem atravessa uma fronteira invisível entre o esporte e a sobrevivência. Só parou quando o barulho virou lembrança e o perigo, distância. Já na beira da pista, próximo a Flórida.
Voltou de carona. Aliviado. Talvez cansado. Talvez sorrindo por dentro.
Porque, no domingo seguinte, o futebol recomeçava.
E lá estaria Noé.
Sacola na mão, apito no bolso, pronto outra vez.
Porque há homens que jogam futebol.
E há aqueles que pertencem a ele.
Noé nunca saiu de campo e nem da memória esportiva de Adamantina







