Armadilhas da polarização

Confira o conteúdo assinado pelo jornalista Rubens Galdino da Silva

Gosto de comentar reportagens sobre artigos ou eventos relacionados a temas provocativos. É o caso da reportagem de Renata Cafardo no “Estadão”, versão on-line de 19 deste mês, atualizada às 13h24, sobre a São Paulo Innovation Week 2026, prevista para 13 a 15 de maio. O evento reúne líderes globais para debater tecnologias e inovações.

A reportagem baseia-se em comentários de Steven Pinker, professor e pesquisador de Harvard e um dos principais convidados para o evento. O título, por si, é provocativo: “‘Todo mundo acha que o seu lado é inteligente e o outro é ignorante’, diz Pinker sobre polarização”.

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O tema central da reportagem é a relação de aproximação semântica entre polarização, incapacidade dialógica, certeza dogmática e redução do outro à coisificação ou à ignorância.

O eixo da reportagem é a ideia de que a tendência do radicalismo é desprezar a analítica do diálogo argumentativo. Prefere-se o uso de sínteses pré-concebidas, movidas por desejos latentes e estereotipados. Friedrich Nietzsche denominava isso de “pensamento de rebanho”.

Nesse cenário, o debate público deixou de ser espaço acolhedor das diferenças. Transformou-se em batalha entre clãs. Em vez do diálogo, trava-se a guerra dos discursos, em que a primeira vítima é a própria verdade dos fatos.

Enquanto o diálogo exige prudência e exame cuidadoso das circunstâncias, a guerra dos discursos prima por generalizações e slogans rígidos. Com isso, em vez de compreender, condena-se o outro à condição de ignorância.

Em si mesmo, não se trata de tema novo. Ao longo da história, vários pensadores dedicaram-se à questão. Talvez o grande mérito da palestra de Pinker seja atualizar o debate diante do antagonismo radical atualmente instalado no espaço público.

Ao agir assim, o radical acredita convencer o interlocutor a todo custo. Costuma revestir a autoconvicção de um poder sagrado, como se encarnasse plenamente a verdade. Transforma o argumento em demonstração de lógica matemática.

Não costuma preocupar-se com a verdade real ou sensível do objeto do diálogo. O ideal platônico e o real aristotélico fundem-se numa única substância denominada “verdade”, fabricada ao sabor das circunstâncias e dos interesses do momento.

Essas verdades convenientes carregam a ilusão de gerar a convicção de saber aquilo que, de fato, nada sabe. Dessa ilusão costumam brotar a arrogância e a intolerância, ambas filhas da ignorância. Cria-se uma autossurdez e, ao mesmo tempo, tenta-se emudecer o outro.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel dizia que a consciência carece do reconhecimento do outro. Há necessidade de que o outro conceda o beneplácito legitimador. Contudo, sem reconhecer o outro como sujeito racional, o radical, movido pela cegueira mental, não busca no outro o contra-argumento como diálogo. Ao contrário, degrada-se em luta estéril.

Esquece-se, por sua vez, de que o outro também é ser pensante. Aliás, também é dotado da capacidade de deslindar falácias do argumento estereotipado por meio da dúvida. No caso, não da dúvida cética, mas da dúvida provisória ou metódica.

Os mais prudentes utilizam a sabedoria sugerida por Michel de Montaigne da “dúvida moderada”, expressa na máxima “Que sais-je?” (“Que sei eu?”). Ela sugere que a humildade intelectual não é hipocrisia da modéstia. Antes, é arma fulminante contra a arrogância e a intolerância.

Hannah Arendt apontou o grande perigo social da destruição do espaço público pelas narrativas tribais, típicas da polarização de clãs. Perde-se a dimensão racional. Nesse ambiente, a verdade nada importa. Tudo vira narrativa tribal. Como consequência, a sociedade adoece.

Enfim, o fanático quer apenas vencer, utilizando-se de todos os meios possíveis, independentemente de seu valor ético. O pensador dialoga para compreender, acolher diferenças e aprender com todas as oportunidades de amadurecimento intelectual e sentimental.

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