(Memórias de um cronista IV)
Existem muitas terras multifacetadas no Brasil, mas nenhuma como aquela em que vivi por quase vinte anos. Foi ali que atravessei a infância, a adolescência e cheguei, sem ao menos perceber, aos primeiros anos da vida adulta. Naqueles tempos não havia nada de excepcional, visto de fora. Ainda assim, era tudo que precisava.
Na minha terra multifacetada, brinquei, briguei, bati e apanhei, como convém a quem cresce sem manual. Estudei o suficiente, joguei bola mais do que devia, pesquei quando dava, usei estilingue com uma pontaria discutível. E, entre um dia e outro, fui aprendendo o essencial, embora não soubesse exatamente o que era o essencial.
Na minha terra multifacetada, fica a Guanabara, fazenda do fundador da cidade, conhecido como o Rei do Gado. Fica também a Primavera, latifúndio nascido de terras griladas, que, graças à luta de valentes trabalhadores rurais, se tornou um marco na história da reforma agrária. É nesse lugar de tantas camadas que, de 1941 a 1956, Cora Coralina atuou como agricultora, candidatou-se a uma cadeira na Câmara dos Vereadores (não sendo eleita) e foi dona de uma loja de retalhos chamada Casa Borboleta.
Na minha terra multifacetada, a poetisa errante, após uma colheita bem-sucedida, escreveu a Oração do Milho e, em seguida, o célebre Poema do Milho. Antes, em Cântico de Andradina, ela havia detalhado a diversidade social existente na colonização do município. Vejamos trechos dessa pequena obra-prima: (…) Posse. Vinculação. Desbravamento. Lastro. Variante. Descrença dos vencidos. Deserção. E, ao cântico de fé dos vencedores, surge uma cidade nova na confluência de dois rios – o sonho euclidiano.
Loteação. Rumos. Picadas. Marcos. Balizas. Terras de venda. Terras de renda. Dadas. De graça. Vendidas a prestação. (…) Pião. Cama-de-vara. Barriga-verde. Pau-de-arara. Machadeiro. Picadeiro. Empreiteiro. Mascate. Picareta. Corretores. Banqueiros. Agenciadores. Aventureiros. Sobras de outros cantos. Fracassados.
Na minha terra multifacetada, de tantos contrastes, também viveu um herói da Segunda Guerra Mundial, cujo nome é lembrado com respeito na cidade e região. Pessoa humilde, de origem afrodescendente, Eufhosino de Almeida foi um dos líderes do grupo de soldados que ficou conhecido, na Itália, como os “libertadores”, por dividir a parca ração que recebiam com crianças, mulheres e idosos famintos.
A ação humanitária dos “libertadores” comoveu até o papa Pio XII, que registrou: “Onde os brasileiros estivessem, não havia fome”. Ainda hoje se comemora, em cidades italianas, o Dia do Mingau da Amizade, em homenagem a esses brasileiros que correram o risco de ser levados à corte marcial por desviar, para uma população civil em estado de penúria, parte dos alimentos que recebiam dos exércitos aliados.
Na minha terra multifacetada, há histórias que preferem correr de boca em boca, como vento na plantação. Em 1977, o padre holandês Renier Emaniel A. G. Parren comprou briga com a elite conservadora (sempre tão bem acomodada nas primeiras cadeiras das igrejas) e com autoridades policiais e políticas. Ao lado de camponeses que, havia anos, lutavam por um pedaço de terra na Fazenda Primavera, padre Renê, como é mais conhecido, ajudou a transformar uma reivindicação antiga em ação organizada.
Quando a vitória veio, em pleno regime militar, a notícia espalhou-se rapidamente, como uma chuva depois da seca. Os anos se passaram e, em 2008, um filho de assentados, nascido na Fazenda Primavera, quebrou uma tradição que vinha desde a fundação do município. Sem apoio dos meios de comunicação, nem de empresários e grandes fazendeiros, Jamil Ono (PT), foi eleito prefeito de Andradina. Em 2012, o “sem-terra” foi reeleito e, em 2016, elegeu sua sucessora, Tamiko Inoue (PCdoB).
Na minha terra multifacetada, a comunidade negra pulsa com vigor, fiel às suas raízes africanas como um tambor que nunca silencia. Guardo comigo a saudade das festas de São Cosme e São Damião, das quais participei na infância, na Baixada Preta, onde a alegria parecia não ter fim. Ainda hoje me visita o sabor da macarronada farta e o açúcar dos doces que eram servidos à molecada pelas generosas mães de santo.
Outra coisa que chama atenção na comunidade negra andradinense é a proximidade que familiares do saudoso expedicionário Eufhosino de Almeida mantêm com o continente africano. Explico. Samora Machel de Almeida, filho de Manoel Messias de Almeida, recebeu esse nome em homenagem ao revolucionário Samora Moisés Machel, líder da Guerra da Independência de Moçambique e seu primeiro presidente.
Como um desígnio dos deuses, o jovem Samora conheceu e estreitou laços com Graça Machel, viúva de seu homônimo e também de Nelson Mandela, figura única na história por ter sido primeira-dama de dois países. Nos encontros, seja no Brasil ou na África, os dois discutem políticas sociais como quem cultiva futuros possíveis, e cada diálogo ecoa como motivo de orgulho em minha terra multifacetada. É para registrar fatos como estes que, pouco a pouco, estamos escrevendo a série Memórias de um cronista.
Por fim, dedico este humilde texto aos amigos José Rivaroli Filho (Zeca do Posto) e João Benedito Passarinho (que, como eu, viveram em Andradina) e à amiga Ivoni Ramos, por ser uma pessoa tão especial. Também dedico este escrito ao andradinense Gilberto Alves e aos historiadores Tiago Rafael dos Santos Alves e Izabel Castanha Gil.
















